Alguns consideram a literatura uma voz divina. Outros consideram a literatura uma arte salvadora dos males do mundo. Outros ainda acreditam que ela tem o poder de transformar a sociedade. Também existam aqueles que a encaram como remédio contra os tormentos interiores.
Mas que tal pensar a literatura como enfermidade? A grande causadora de uma série de doenças cruéis capazes levarem a óbito homens e mulheres pelos quatro cantos do mundo. Quem defende essa tese é o escritor argentino Diego Vecchio em seu livro de contos "Micróbios", que acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify.
Diego Vecchio é um dos convidados da Flip, a Festa Literária internacional de Paraty que acontece entre 1 e 5 de julho próximo. Nascido em Buenos Aires, em 1969, há duas décadas reside na França, onde atua como professor de literatura hispano-americana na Universidade de Paris.
O livro reúne nove histórias que abordam as relações entre literatura e enfermidade. Com bom humor e tom enciclopédico, os contos apresentam casos de fantásticas patologias onde a literatura ocupa papel determinante. Casos clínicos de várias partes do mundo que, apesar culminarem em óbito, se revelam surpreendentes e divertidos.
No conto "A Dama das Flores", traz a história da senhora Anasztazia, uma leitora assídua de poesia. Após uma febre, descobre que a linda metáfora floral que os poetas utilizam há séculos em seus versos não passa de um engodo. Com a febre, ela começa a ouvir a voz das flores e constata que o que as flores dizem não tem nada de bonzinho e bonitinho. Só maldades cabeludas. Atormentada, ela começa a trucidar jardins de rosas, lírios, margaridas, tulipas e jasmins para colocar a poesia de volta nos trilhos.
"O Homem das Formigas Desaparafusadoras" traz a história de Roderick, um jovem que dedica a vida em traduzir clássicos da antiga literatura grega. Abatido por uma interminável enxaqueca e sedento em conseguir a tradução perfeita, começa a vender partes do próprio corpo para fantasmas de escritores gregos que desejam voltar ao mundo dos vivos. Um rim aqui, um baço ali, um testículo acolá e o tradutor consegue a mais genial das versões.
No conto "O Homem dos Miolos", Diego Vecchio apresenta a história de Evaristo, um renomado escritor que entra em coma. Para voltar à vida normal precisa do transplante de um pequeno pedaço de cérebro. Os fãs da obra de Evaristo se organizam uma grande campanha para a realização da cirurgia e na tentativa de encontrar um doador compatível.
O procedimento médico é realizado com sucesso, utilizando um pedaço do cérebro de um açougueiro falecido de ataque cardíaco. Mesmo curado, Evaristo não consegue voltar à literatura com o sucesso de antes. Seus escritos passam a falar apenas de alcatra, ossobuco, maminha, costela, patinho, fraldinha, contrafilé e outras coisas bovinas.
As histórias criadas por Diego Vecchio em "Micróbios" inserem o corpo humano, tanto do escritor como do leitor, na prática literária. A abstração das ideias e a fantasia poética são visitadas pela materialidade do corpo em carne e osso, com toda sua coleção de infecções, patologias, vermes, micróbios, enfermidades, doenças, perebas e unhas encravadas. Um corpo encarado como uma extensão da literatura e uma literatura como uma extensão do corpo.
O humor, a ironia e a imaginação presentes nos contos de "Micróbios" demonstram que as conexões entre literatura e enfermidade são imensas, complexas e instigantes. Justamente numa época em que os títulos mais vendidos no país são os livros para analfabetos, também conhecidos como livros de colorir (são mais de 1,5 milhões de exemplares vendidos nos últimos meses). A ironia é simples: se toda doença traz o germe de sua cura, toda cura também carrega o germe de uma nova doença.

Serviço:
"Micróbios"
Autor – Diego Vecchio
Editora – Cosac Naify
Tradução – Paloma VidalvPáginas – 192
Quanto – R$ 34,90

Então, subitamente, de maneira inexplicável, vindo do nada, lhe ocorreu uma ideia extraordinária, provavelmente a ideia mais extraordinária que tenha sido concebida ao alcance de seus ossos, de seus pobres músculos, de seus pobres nervos. Se ele não podia suprimir diretamente a ladra, ao menos podia consolar-se destruindo o objeto roubado. Se não podia eliminar o agente, ao menos podia aniquilar o produto e a ação. Concretamente, Kresel se propôs a assassinar a literatura. Isso mesmo, assassinar a literatura. Assassinar a literatura? Assassinar um vizinho, sua mãe, o rei ou uma estrela de cinema é um ato lamentável – ninguém irá negar - , mas no fundo fácil demais e ao alcance de qualquer um. Basta um pouco de sangue-frio para puxar o gatilho de uma arma, enrolar um arame ao redor do pescoço, empurrar um corpo da sacada do vigésimo andar, polvilhar uma taça de vinho com arsênico. Mas para assassinar a literatura era preciso um pouco mais que sangue-frio. Era preciso encontrar algo mais cortante que uma navalha, algo mais perfurante do que uma bala, algo mais vertiginoso que um veneno. Era preciso inventar um micróbio que se infiltrasse no corpo da literatura por algum orifício a fim de comprometer o sistema nervoso central e periférico. Esse micróbio era o último livro: o livro que produziria nos homens de letras uma paralisia geral progressiva. (Fragmento do conto "O Homem do Último Livro", que integra "Micróbios", de Diego Vecchio)
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