LEITURA - As duas faces do tempo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de agosto de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A realidade adulta possui algumas especialidades. Entre elas, a de fincar suas unhas na infância. Geralmente, no instante em que isso ocorre, a ideia de felicidade torna-se um paraíso perdido, enterrado no fundo do quintal.
O escritor espanhol Antonio Soler, em seu romance ''As Dançarinas Mortas'', coloca o dedo nesse instante peculiar, o exato momento em que as unhas são cravadas, o instante em que as marcas das unhas começam a fazer parte da pele.
Primeira obra de Antonio Soler publicada no Brasil em 1998, ''As Dançarinas Mortas'' deve ganhar uma nova edição pela Companhia das Letras. Encontrado atualmente apenas em sebos, o livro volta às estantes das livrarias em setembro.
O romance é formado por duas narrativas paralelas que se encontram para criar situações onde as ilusões são abatidas na batalha da realidade. O narrador é um garoto que vive numa pequena cidade do interior da Espanha. Sua vida é simples e desprovida de grandes aventuras, trafega entre a escola e os jogos de futebol com os garotos da vizinhança. Mas um outro mundo o fascina, um mundo que conhece apenas pelas cartas e fotos que o irmão mais velho envia pelo correio.
O irmão trabalha, como dançarino e cantor, em um cabaré de Barcelona. Um lugar repleto de pessoas interessantes, amores excêntricos, novidades e lantejoulas, mulheres sedutoras e homens apaixonado. Este universo cosmopolita chega ao garoto através de detalhadas cartas e fotografias reveladoras.
O garoto assiste, fascinado, através dos relatos e imagens a ascensão e a queda do glamour do cabaré. Assiste a decadência e tragédia de cada dançarina, de cada funcionário. Paralelamente, assiste, em seu dia a dia, o esfacelamento da infância, a queda de todas as ilusões e esperanças com relação à vida. Duas moedas, a infância e a vida adulta, com o mesmo peso. Os dois mundos se encontram não como correlação de formas, mas como correlação de sentidos existenciais.
Na mente do garoto o elemento de ligação entre o cabaré distante e a vida imediata, está num som. Um som peculiar, o ruído que seu melhor amigo produz ao cair no chão para defender o gol. Um som semelhante ao ruído produzido pela queda das bailarinas do cabaré quando assassinadas ou impulsionadas pelo suicídio. Vale dizer que a principal atração do local não é especialmente coreografia das bailarinas, mas a maneira como elas morrem palco.
O amigo do garoto, vítima da poliomielite, consegue andar graças a uma armadura mecânica nas pernas. Nos jogos de futebol seu lugar é o gol, onde não precisa correr. O barulho que o metal de suas pernas produz ao cair no chão é o mesmo imaginado pelo garoto quando seu irmão descreve, nas cartas, as bailarinas desabando mortas no palco. A queda como elemento de ligação entre dois mundos regidos pelos mesmos princípios: a dor.
A estrutura extremamente contemporânea de ''As Dançarinas Mortas'' é formada pelo relato de um homem, entre o humor e a tragédia, refugiado em sua própria memória. Sua existência está no passado. Sua missão, ao apresentar a história de sua infância, é anestesiar-se de sua vida adulta. O passado assume uma dimensão maior que o presente. Surge a imagem do ato de narrar como remédio para suportar das desilusões e tragédias da vida. Na transição do universo infantil para o adulto, ninguém sai impune.
Nascido em 1956, na cidade de Mágala, Antonio Soler atua como jornalista e roteirista de televisão. ''As Dançarinas Mortas'' foi agraciado com o prêmio ''Herralde'' de 1996. Soler possui apenas um outro romance publicado no Brasil, ''O Caminho dos Ingleses'', lançado em 2007 pela editora Civilização Brasileira.
SERVIÇO
- As Dançarinas Mortas
Autor - Antonio Soler
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Sérgio Molina
Páginas - 266
''Eu, ao ver as cartas e os postais que meu irmão mandava, procurava ler bem devagar aquela prosa que, entre beijos para minha mãe, piadas para minha irmã e meu pai e lembranças para minhas tias, falava de sua dança, do cinema e dos cartazes de Barcelona, além de fazer comentários sobre seus colegas de cabaré, de dom Maurício, das mágoas do fotógrafo Rovira e de tantas outras questões que, assim embaralhadas, eram como peças de um quebra-cabeça que eu ia montando como podia, imaginando uma nebulosa de rostos, palavras e até sentimentos que, anos mais tarde, meu irmão, já de viva voz e tendo voltado de Barcelona e de sua vida de artista, iria iluminar.''
(Fragmento de 'As Dançarinas Mortas' de Antonio Soler)


