LEITURA - As dissimuladas garras do tempo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de setembro de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O tempo não é algo que os dedos tocam. Parece ser algo que os dedos enxergam de forma distante. Um lugar distante, um amor perdido, um planeta ou um sonho distante.
Tudo indica que um dos grandes desafios da humanidade seja justamente se desvencilhar da ideia de poder agarrar o tempo. Deixar para trás unhas e dentes para abraçar algo mais sutil nesse desafio: a linguagem.
Entre os criadores que mais apostaram nessa possibilidade, está o escritor norte-americano William Faulkner. Foi um dos grandes narradores que conseguiu transformar o tempo em linguagem. No caso, a linguagem das palavras.
Uma de suas obras em que o tempo ocupa um lugar de destaque é ''Sartoris'', romance publicado originalmente em 1929. Poder ser considerada um divisor de águas, já que assinala o final da chamada primeira fase de seu caminho literário. Isso porque, logo após ''Sartoris'' Faulkner colocaria nas mãos dos leitores ''O Som e a Fúria'', sua obra mais radical. Um livro que representou uma verdadeira revolução na linguagem do romance. Algo próximo daquela realizada pelo irlandês James Joyce em ''Ulisses''.
A primeira edição brasileira de ''Sartoris'' chega finalmente às livrarias no final de setembro pelas mãos da editora Cosac Naify. Aos admiradores da obra de Faulkner fica a satisfação de entender a transição radical praticada pelo autor entre ''Sartoris'' e ''O Som e a Fúria''.
Uma mudança radical não tanto pela temática, onde a atmosfera do tempo continua como uma espécie de névoa que cai sobre as duas histórias, mas uma transformação de linguagem. Se em ''O Som e a Fúria'' o tempo aparece como fluxo de consciência dos narradores, em ''Sartoris'' o tempo aparece como a construção de um trauma do passado. E as consequências desse trauma, só passam a ser visíveis através da ideia de tempo encarado como fatalidade.
''Sartoris'' apresenta decadente história de uma típica rica família do Mississipi que, após viver a glória no sistema escravocrata, enfrenta as transformações das primeiras décadas do século 20. Após uma sucessão de perdas, a família Sartoris passa a se resumir um pequeno núcleo. O avô Bayard, chamado de ''Velho'', a tia Jenny, e o neto com o mesmo Bayard, chamado de ''Novo''. Todos vivem sob o estigma de dois pesados fantasmas que consomem suas memórias e seus cotidianos: o Coronel Sartoris, pai de Bayard ''Velho'', e John, irmão gêmeo de Bayard ''Novo''.
Dono de um pequeno banco, Bayard ''Velho'' é um branco racista que vive do passado e leva os dias discutindo com os ex-escravos que ainda permanecem como seus empregados. Bayard ''Novo'' vive os dias correndo de carro pelas estradas de terra da região, geralmente afogado em álcool. Sua grande dor é ter perdido o irmão gêmeo durante num acidente aéreo quando os dois serviam o exército americano na Primeira Guerra Mundial.
O destaque de ''Sartoris'' fica por conta da tia Jenny, o personagem feminino mais representativo da literatura de Faulkner. A mulher solteirona que, com mão de ferro, cuida da família com um tipo de acidez rara. A mulher que encara a missão de realizar uma leitura ácida de toda família sem firulas. Para ela, os Sartoris sempre procuram como único destino comum. O cemitério.
''Sartoris'' revela a admirável capacidade de William Faulkner em transformar o tempo em palavras. As descrições de acontecimentos cotidianos focalizam o pequeno para provocar no leitor a sensação do grande. Aquela sensação de que a vida só existe na memória. E de que a memória é uma despropositada tentativa de perceber a passagem do tempo.
Serviço:
- Sartoris
Autor - William Faulkner
Editora - Cosac Naify
Tradução - Claudio Alves Marcondes
Quanto - Não definido (412 págs.)
FRAGMENTO:
''Não se esqueça de que a mentira faz parte da luta pela sobrevivência'', disse ele, ''o recurso do homem, em sua insignificância, de ajeitar as circunstâncias para que se adequem ao conceito que faz de si como alguém do mundo. Uma vingança conta os deuses sinistros.''
''É verdade'', persistiu ela. ''As pessoas normalmente não mentem a respeito daquilo que não lhes concerne. Elas são impermeáveis ao mundo, mesmo que não o sejam à vista. Sobretudo quando a atualidade é tão mais divertida do que se consegue ser a imaginação delas.''
(Fragmento de ''Sartoris'', de William Faukner)


