Esquecer pode ser ruim. Também pode ser bom.
Esquecer coisas ruins pode ser bom. Esquecer coisas boas pode ser ruim.
Mas o esquecimento nem sempre atua de modo seletivo. Nem sempre escolhe um dos lados da dualidade. Em alguns momentos, o esquecimento atua como névoa que tudo envolve, sem nenhum tipo de distinção. O verdadeiro esquecimento é completo. Ele elimina todo o passado, apaga as lembranças, extingue a memória.
Em seu novo romance, "O Gigante Enterrado", o escritor japonês Kazuo Ishiguro compõe uma fábula fantástica sobre o esquecimento completo, individual e coletivo. No interior dessa fábula sobre o esquecimento desenha outras duas fábulas, uma sobre o ódio étnico, outra sobre o amor.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "O Gigante Enterrado" é completamente diferente de outros romances de Kazuo Ishiguro. Povoado por dragões, ninfas, ogros e duendes, é a primeira experiência do autor com a literatura fantástica. Em outros livro chegou a flertar com gêneros como a ficção científica e o romance policial, mas nunca tinha se aventurado pelo universo da fantasia.
A história acontece séculos e séculos atrás numa região da Europa dividida entre os povos saxões e os bretões. Há um clima de relativa paz entre as duas etnias após a queda do rei Arthur. Também há um esquecimento que abate a população. Ninguém se lembra do passado, ele representa apenas a semana ou o mês anterior. Não há lembranças, nem memórias do passado, todos vivem sob a névoa de esquecimento.
As duas únicas pessoas que sentem falta de lembranças são Axl e Beatrice, um casal de velhinhos que deseja saber como era o amor deles no passado para ter se transformado no amor sentem no presente. Vivendo um amor devotado baseado no agora, os dois sentem falta de um passado. Nesse contexto, não conseguem saber o que sustenta o amor no presente. Acreditam que o sentimento está baseado nas coisas que viveram juntos ao longo das décadas, das quais não possuem nenhuma lembrança.
Essa ideia de um amor que sente falta de referências do passado, para torná-lo pleno de sentido, é a mais bela imagem da obra.
Incomodados com um passado vazio, Axl e Beatrice partem em uma jornada para descobrir a origem da névoa do esquecimento e tentar desfazê-la. Descobrem que a névoa do esquecimento é emitida pelo hálito de um velho dragão fêmea. Nessa caminhada cruzam com figuras que tornam a jornada mais complexa: o jovem guerreiro Wistan criado entre os saxões e bretões; o velho guerreiro bretão sir Gawain, o último remanescente fiel ao finado rei Arthur; e o garoto Edwin, o único sobrevivente de um ataque de dragão.
Em "O Gigante Enterrado" Kazuo Ishiguro utiliza o gênero fantástico para estabelecer uma metáfora com realidades da contemporaneidade. O caráter fantástico e fabular da narrativa não distrai a atenção para um assunto atual: o ódio étnico.
Na tese da narrativa, para promover a paz entre dois povos que desejam o mesmo território, basta que um deles promova uma guerra cruel e derrote violentamente o outro. E após a vitória, e com o derrotado vulnerável, basta que o vitorioso estimule uma convivência mútua entres vencedores e derrotados em nome da paz e pelo bem da humanidade.
Como essa convivência pacífica não é gerada pela concordância, mas pela armas da violência, pelo terror da dor e pelo medo da morte, a paz se revela uma aparência passageira. O ódio dos derrotados, que presenciaram seus parentes, mulheres, filhos e amigos serem dizimados, permanece acalentando silenciosamente a vingança. Uma vingança que, uma hora ou outra, tornará a reviver uma nova batalha.
Kazuo Ishiguro é muito mais um escritor inglês do que um autor japonês. Nascido na cidade de Nagasaki em 1954, nove anos após a explosão da bomba atômica da Segunda Guerra Mundial, mudou-se com a família para a Inglaterra com cinco anos de idade. Retornou ao Japão apenas 30 anos depois para uma breve visita. Alguns de seus romances trafegam entre uma Europa real e um Japão imaginário.
Grande parte de sua obra já foi editada no Brasil: "Uma Pálida Visão dos Montes" (Rocco, 1988), "Um Artista do Mundo Flutuante" (Rocco, 1989), "O Desconsolado" (Rocco, 1996), "Quando Éramos Órfãos" (Cia. das Letras, 2000), "Os Resíduos dos Dias" (Cia. das Letras, 2003), "Não Me Abandone Jamais" (Cia. das Letras, 2005) e "Noturnos" (Cia. das Letras, 2010).
Seu romance mais conhecido recebeu duas edições. A primeira saiu pela editora Rocco em 1988 com o título "Os Vestígios dos Dias", a segunda pela editora Companhia das Letras em 2003 com o título "Os Resíduos dos Dias". Foi transformado em filme pelo cineasta James Ivory em 1992 com Anthony Hopkins e Emma Thompson nos papéis principais.
O grande sentido fabular de "O Gigante Enterrado" está em sugerir que sem passado, o amor é uma árvore sem raízes. E igualmente sugerir que só o esquecimento do passado histórico, algo quase utópico, pode deixar a convivência entre os povos sob uma atmosfera de paz.

Serviço:
"O Gigante Enterrado"
Autor – Kazuo Ishiguro
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Sonia Moreira
Páginas – 400
Quanto – R$ 39,90 e R$ 27,90 (e-book)

"Mas a senhora tem certeza de que deseja ficar livre dessa névoa? Será que não é melhor que algumas coisas permaneçam encobertas?" "Pode ser que para algumas coisas sim, mas não para nós. Axl e eu queremos recuperar os momentos felizes que passamos juntos. Não lembrar deles é como se fôssemos roubados, é como se um ladrão tivesse entrado no nosso quarto à noite e levado o que nos é mais precioso." "No entanto, a névoa encobre todas as lembranças: tanto as boas quanto as más. Não é verdade senhora?" "Nós aceitamos as más lembranças de volta também, mesmo que elas nos façam chorar ou tremer de raiva. Afinal, elas não são a vida que compartilhamos?" (De "O Gigante Enterrado" de Kazuo Ishiguro)
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