LEITURA - As chagas da memória
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de outubro de 2010
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A expectativa é inevitável. Quase fatal. Repleta de curiosidade. Como será o novo livro do escritor curitibano Cristovão Tezza após o impacto e o sucesso de ''O Filho Eterno''?
Estamos falando de um romance que, publicado em 2007, ganhou seis dos principais prêmios literário do país. Vendeu mais de 40 mil exemplares e teve os direitos de publicação vendidos para nove países. Está próximo de ser transformado em filme e peça de teatro. Enfim, ''O Filho Eterno'' tornou-se um dos raros exemplos de sucesso de crítica e público na literatura brasileira.
Expectativas e curiosidades podem ser deixadas para trás com o lançamento de ''Um Erro Emocional'', novo romance de Cristovão Tezza que está nas livrarias. O leitor que esperava uma espécie de continuação temática de ''O Filho Eterno'' dará com os burros na água. O leitor que esperava uma linguagem mais acessível, pode tirar o cavalo da chuva.
''Um Erro Emocional'' narra o encontro entre Paulo, um escritor, e Beatriz, uma revisora. Tudo se passa em poucas horas, entre uma garrafa de vinho, uma pizza e um café. Duas pessoas que acabaram de se conhecer e percebem que uma forte relação emocional está nascendo. Duas pessoas com um passado pontuado por cortes e feridas.
A narrativa desse encontro é apresentada através de falas, pensamentos, reflexões, lembranças, recordações e imaginações. Tudo de maneira simultânea. Também através de tempos diferentes. Passado, presente e futuro sobrepostos. A história de Paulo e Beatriz, até o momento do encontro, é revelada através do fluxo de consciência dos personagens, através de pensamentos sobrepostos.
As revelações não acontecem através de fatos ou acontecimentos. Elas acontecem através do pensamento sobre os fatos e acontecimentos passados. Cristovão Tezza narra a história de suas vidas a partir de um encontro. Mais especificamente, a partir dos pensamentos interiores e individuais de cada um, como se os dois personagens encontrassem a si mesmos.
Um dos destaques do romance está na linguagem utilizada pelo autor. Tempos distintos e vozes interiores dividem o mesmo espaço. Os limites entre tempos e vozes são definidos apenas pela pontuação. Primeira e terceira pessoa também surgem de maneira simultânea. Enfim, uma estrutura que traz as principais características da prosa contemporânea.
''Um Erro Emocional'' pode ser considerado um romance sobre a pré-história da paixão a partir do retrato dos pensamentos dos amantes no primeiro contato. Não um retrato do contato físico, mas aquele carregado de subjetividade que faz do amor um processo, não um resultado.
Entre Paulo e Beatriz há a eterna dubiedade entre entrega e medo. Por terem vivido suas experiências e traumas, o encontro se desenha pelas mãos de uma melancolia esperançosa. Entre o passado e o presente existe um inimigo invencível: a memória.
Muito mais do que um romance sobre as possibilidades e impossibilidades de um encontro, ''Um Erro Emocional'' é uma obra sobre as chagas das lembranças. Sobre como a memória queima. Sobre como ela deixa cicatrizes internas e eternas. Como ela pode sabotar as possibilidades mais viáveis de alguém viver longe de suas garras.
Em ''Um Erro Emocional'', Cristovão Tezza dá um passo além de ''O Filho Eterno''. Retrata a mesma busca por saídas, mas arrisca mais na linguagem.
Serviço:
- Um Erro Emocional
Autor - Cristovão Tezza
Editora - Record
Quanto - R$ 34,90 (192 págs.)
Cometi um erro emocional, Beatriz se imaginou contando à amiga dois dias depois - foi o que ele disse assim que abri a porta, o tom de voz neutro, alguém que parecia falar de uma avaliação da Bolsa, avançando sem me olhar como se já conhecesse o apartamento, dando dois, três, quatro passos até a pequena mesa adiante em que esbarrou por acaso, depositando ali o vinho com a mão direita e a pasta de textos com a esquerda (e ela se viu desarmada no meio de três sinais contraditórios, o erro, o vinho, o texto, mas a espécie de invasão de alguém que está à vontade - o que ela havia sonhado, Beatriz teria de confessar à amiga, e ambas achariam graça da ideia - à vontade, mas não do modo correto) e Beatriz fechou a porta devagar com um sorriso de quem se vê imersa na ironia, e isso é bom; e se virou para escutar o resto, agora vendo-o com as mãos livres, silhueta contra a luz, os braços brevemente desamparados daquele homem magro:
- Eu me apaixonei por você.
(Fragmento de ''Um Erro Emocional'' de Cristovão Tezza)


