No passado, para uma pessoa ser considerada celebridade, ela precisava fazer algo que fosse notório, algo significativo para a humanidade. E isso poderia levar toda uma vida.
No presente, para uma pessoa ser considerada celebridade, basta aparecer. Pode ser de qualquer maneira. Não precisa fazer nada de notório ou significativo. E pode levar menos que dez minutos.
Essa transformação de valores é satirizada com afinco por Martin Amis em seu novo romance, "Lionel Asbo". O escritor inglês realiza uma ferina sátira ao culto às celebridades que entopem jornais, revistas, televisão e internet. Publicado ano passado na Inglaterra, o livro acaba de chegar ao Brasil lançado pela editora Companhia das Letras.
O romance narra a história de Lionel Asbo, um brutamontes casca grossa semianalfabeto que vive de pequenos delitos e recepção de objetos roubados. Quebra na porrada tudo e todos que cruzam seu caminho. Possui dois pit bulls psicopatas treinados para cobrar dívidas e acertos. Possui uma avantajada força física inversamente proporcional a sua capacidade mental. Típico cabeça dura de miolo mole. Trocou seu sobrenome de Lionel Pepperdine para Lionel Asbo de maneira delibera - vale lembrar que "ASBO" é a sigla em inglês para "Condição de Comportamento Antissocial", termo utilizado pelo sistema penal.
Numa de suas temporadas na prisão, resolve fazer algo que nunca fez: jogar na loteria. Mesmo considerando o jogo uma coisa de gente imbecil, marca os números com descaso e descrédito. E, inesperadamente, fica milionário do dia para a noite.
E do dia para a noite torna-se famoso, uma celebridade. A imprensa publica tudo sobre o bandido que ficou milionário honestamente. Num primeiro momento, Lionel começa a ofender e espancar todo jornalista e paparazzi. Depois contrata uma assessoria de imprensa que o transforma num lord. Precisa mudar sua imagem para ser respeitado como milionário. No mundo dos ricos, fora de seu ambiente natural, se transforma num homem angustiado, um peixe fora da água. Uma caricatura de celebridade já caricata.
Mais do que a história de Lionel e sua família problemática, o romance narra a história de Desmond Pepperdine, sobrinho de Asbo. Foi ele que criou o garoto desde pequeno após o falecimento da mãe, sua irmã mais velha. Curiosamente Desmond é o oposto de Lionel, um jovem responsável, honesto, pacífico, trabalhador e estudioso. É a lucidez numa família de doidos. Só carrega um fantasma dentro de si: o de ter sido iniciado sexualmente pela avó maluca quando tinha 15 anos.
Em "Lionel Amis", Martin Amis trabalha o hilário e o trágico ao longo de toda narrativa. Nesse contraponto, a realidade torna-se absurda e o superficial torna-se regra. Fugindo ao óbvio, as pausas e os silêncios narrativos são reservados para os acontecimentos mais determinantes, uma tática utilizada pelos grandes escritores.

Nascido em Oxford em 1949, Martin Amis não está interessado em expor como as celebridades do mundo atual são construídas. Seu foco está em expor a hipocrisia que faz a mídia criar os famosos e as pessoas a consumirem as celebridades. E para isso apresenta a história de uma família problemática de gente simples que foge a qualquer tipo de padrão. E como um dos elementos da família, Lionel, tenta sair de seu mundo impulsionado pela fama e cai em desgraça para alimentar as aparências.

Serviço
"Lionel Asbo: Estada da Inglaterra"
Autor – Martin Amis
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Rubens Figueiredo
Páginas - 358
Quanto – R$ 49

"O que você está fazendo aí com essa caneta? O que está escrevendo? Desembucha." Desmond tratou de pensar rápido. "Eh, é uma coisa de poesia, tio Lionel." "O quê?... Às vezes você me deixa maluco. Por que não vai para a rua quebrar umas vidraças? Isso não é saudável. Ah, sim, escute só. Sabe aquele babaca que cobri de porrada no pub na sexta-feira? O sr. Ross, lembra? Pois ele vai me processar. Me dedurou para a polícia. Nem dá para acreditar." Desmond sabia como Lionel podia se sentir sobre esse tipo de coisa. Certa noite no ano anterior, Lionel chegou em casa e encontrou Desmond no sofá de couro sintético preto, inocentemente jogado na frente da televisão, vendo o programa Crimewatch, sobre crimes não desvendados. O resultado foi uma das mais longas e ruidosas séries de bofetadas que ele já recebeu das mãos do tio. "Eles estão pedindo às pessoas", disse Lionel, de pé diante da tela colossal, com as mãos na cintura, "para dedurar os próprios vizinhos. Crimewatch é que nem um... um programa para pedófilos, pode crer. Me dá nojo." (Fragmento de "Lionel Asbo", de Martin Amis)
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