LEITURA - As bijuterias do prosaico
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de novembro de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O sujeito é interpelado violentamente no caixa eletrônico do banco. Amarrado e amordaçado, é jogado no porta-malas de um carro. Após rodar por lugares desconhecido, é atirado num pequeno cubículo escuro.
Horas depois, alguém empurra pela porta uma bandeja de comida. Na bandeja, lagostas com presunto de Parma, peito de pato ao molho de cogumelo e outras delícias mais. Para acompanhar uma garrafa de vinho francês de boa safra. Doce, licor e café para encerrar.
Após terminar de comer, o sujeito é novamente amordaçado e amarrado por marmanjos pouco delicados e novamente jogado no porta-malas do carro. Depois é solto, sem nenhuma explicação, próximo de sua casa.
O que parece ser um sequestro, na literatura do escritor curitibano Márcio Araújo é apenas um novo serviço de uma sofisticada rede de restaurantes. Ao cliente, além de pratos requintados, é oferecida a experiência de ser sequestrado sem nenhum risco de vida. Apenas um bom prato acompanhado de fortes emoções.
A história desse novo atendimento ao cliente aparece num dos textos de ''Restos'', segundo livro de Márcio Araújo. Lançado pela editora Bertrand Brasil, a obra reúne 20 contos que focalizam diversos temas em variadas abordagens. Regidos pela simplicidade, os textos revelam tanto as jóias como as bijuterias do prosaico.
Até pouco tempo atrás Márcio Araújo era um autor praticamente desconhecido, com textos publicados apenas em periódicos literários virtuais e impressos. Lançou seu primeiro livro em 2005, ''A Hora Extrema'', pela editora carioca 7 Letras. Sua literatura ganhou repercussão após o livro receber o prêmio Jabuti de 2006 na categoria de contos. Nascido em Curitiba, em 1963, Márcio Araújo viveu na cidade ao longo de três décadas. Ao ingressar na carreira diplomática, percorreu vários países até se instalar em Brasília, cidade onde reside atualmente.
Os contos presentes em ''Restos'' não possuem claramente nenhum elemento de união, mas é possível identificar o elemento da ''solidão'' em alguns personagens. Não a solidão como isolamento corporal, mas a solidão como particularidade dos pensamentos: a clássica solidão presente nos pensamentos individualizados.
Os melhores contos de ''Restos'' são justamente aqueles que seguem o estilo que potencializou o gênero na literatura brasileira durante as décadas de 70 e 80. A principal característica está em partir de um realismo de referências atuais para desaguar num enredo regido por surpresas e situações inesperadas.
No conto ''A Desforra'', por exemplo, o narrador, após presenciar um crime, decide fazer justiça com as próprias mãos. Uma justiça que para ser coerente necessita de elementos próximos da vingança. Parte do argumento de que nenhuma punição faz sentido se o punido não admite o erro tanto na mente como no próprio corpo. Uma das melhores narrativas do livro, o texto consegue criar uma atmosfera onde os papéis de vítima e de algoz se diluem no processo de se confundirem.
Em ''A Imagem'', Márcio Araújo narra uma história onde a descontextualização dá origem a situações impagáveis. Durante as reformas da igreja de uma pequena cidade, a imagem de Jesus é guardada na casa do médico do lugar. A escultura em tamanho natural é colocada no quarto da filha do médico, uma típica pré-adolescente amante de todos os penduricalhos possíveis da cultura jovem de massa. Passando a fazer parte do quarto, ao lado de pantufas e todo tipo de bugigangas, a imagem se torna objeto de peregrinação.
Mesmo sendo uma obra repleta de altos e baixos, ''Restos'' revela um autor procurando criar um caminho próprio, apostando do exercício da escrita como aprendizado literário.
Fragmento do conto A Desforra que integra o livro Restos de Mário Araújo
Há quem planeje um tipo de vingança em que o padecimento do algoz, então convertido em vítima, é acompanhado de longe, ou meramente presumido, sem que o vingador tenha o prazer de testemunhá-lo. Outros preferem a eliminação pura e simples, instantânea e apaixonada daquele que se quer punir, o que acaba resultando, no final das contas, em punição alguma, pois o objeto de anos de sanha e rancor, motivo de tantas fantasias de desforra, súbito desaparece num piscar dos olhos. Meus planos, todavia, eram outros. Eu buscava, antes de tudo, materializar a imagem que estava gravada na minha mente. Queria reproduzir naquela sala, como num laboratório, a criatura que fora capaz de praticar o crime. Mais do que isso, desejava ter diante de mim, a um só tempo, o monstro que estivera com a moça no matagal e o prosaico vendedor de carros. Precisava reuni-los e reunir-me com eles esse era o ponto de partida. Por isso me interessava aquela estranha coabitação noturna, durante a qual eu tinha esperanças de atinar com as suas razões, intuir seus pensamentos e até mesmo me familiarizar com as reações do seu corpo.
O)
Serviço:
- Restos
Autor - Mário Araújo
Editora - Bertrand Brasil
Páginas - 202
Quanto - R$ 29


