LEITURA - Armas e amores
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de julho de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A cena é emblemática. Um enorme cão embaixo da cama, com o rabo entre as pernas, gemendo como criança. O homem que tenta entender a situações é o responsável pela sua alimentação, não seu dono. Ambos, homem e cão, dias atrás tinham fixado um pacto de fuga. O homem fugiria de sua condição de serviçal, o cão de sua condição de treinado para o ataque.
O cão se recusa a seguir com aquele que lhe oferece a liberdade. O cão deseja tal coisa, mas não pode, não consegue. Sente-se um traidor. No dia anterior, seguindo os comandos do dono, havia matado uma pessoa. Justamente um companheiro do homem que estava lhe oferecendo a possibilidade de liberdade. Em outras palavras, o cão é capaz de entender determinada situação e agir de uma maneira que os humanos comumente não conseguem.
Esta cena aparece em ''Homens e Não'', romance do escritor italiano Elio Vottorini lançado pela Editora Cosac Naify. Escrito 1944 quanto Vottorini estava refugiado nas montanhas evitando ser preso, o livro é considerado a primeira obra de ficção a abordar a temática da Resistência - movimento rebelde europeu que lutava contra a ascensão do fascismo e do nazismo alemão durante a Segunda Guerra Mundial. O tema se tornaria recorrente na obra de dezenas de escritores, uma espécie de epidemia literária.
''Homens e Não'' narra a trajetória de Ene 2, um militante italiano que integra um grupo clandestino de militantes da Resistência que atua em Milão. Suas ações possuem um objetivo direto: assassinar os militares alemães que ocupam a cidade. A violência é considerada a única arma capaz de conter a violência do nazifascismo. Mesmo que cada militar morto custe a vida de dezenas de civis, as ações são encaradas como única opção.
Paralelamente a esse drama político-social, o amor entre Ene 2 e Berta, uma mulher casada. Uma história de amor impossível. Impossível como a solução dos conflitos enfrentados pelo militante. Ao longo do relato, a idéia de ilusão e desilusão aparece em suas mais diversas formas. Algo que caminha para o impasse entre a passividade do pessimismo e a coragem do sonho. Esse desejo amoroso confere um frescor à obra em contraponto à crueldade da guerra e da política.
Elio Vottorini (1908 - 1966) coloca em foco o conceito de humanidade numa época de conflito e violência. Parte da idéia de que existem homens bons e homens maus. Que existem homens bons que podem fazer coisas más e homens maus que podem fazer coisas boas. Mais do que isso, independente de serem bons ou maus, são homens. Nesse sentido, a humanidade seria um conjunto de homens e ''homens'', idéia que dá título ao romance.
O eixo central do romance está em fazer da dúvida uma professora paciente e delicada. Prega a dúvida como uma espécie de alimento. Se por um lado a resistência é necessária, por outro a violência que utiliza é desumana. E até que ponto, para combater uma desumanidade, seria necessário utilizar a própria desumanidade como instrumento de ação. Uma dúvida que não limita, mas instiga posições.
Na tentativa de criar uma maneira própria de abordar o assunto, Vittorino em ''Homens e Não'' desenvolve uma narrativa peculiar para a época em que foi criada. Em vários pontos do livro o narrador entra no interior da narrativa para se colocar como voz reflexiva. Chega até mesmo a dialogar com os personagens com objetivo de alterar o mapa da realidade. De abordar esse mapa de maneira quase lírica apesar das dores e crueldades.
Filho de ferroviário, Elio Vittorini teve sua formação literária de maneira totalmente autodidata após abandonar a construção civil. Militante antifascista, teve importante papel na vida cultural italiana do pós-guerra. Além de dirigir várias revistas literárias - entre elas a ''Il Menabó'', ao lado de Italo Calvino - trabalhou como tradutor de vários autores de língua inglesa como Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway, T. S. Eliot, D. H. Lawrence, William Faulkner, W. H. Auden e John Steinbeck.
Fragmento de Homens e Não, de Elio Vottorini
Berta mal tinha se virado, Ene 2 escorou a bicicleta contra a calçada e correu para ela. Mas Berta também andou mais depressa, escapando para fora da multidão.
Sabe, ele disse, o que parece?
O quê?, disse Berta.
Que eu tenho um encantamento por você.
E eu por você. Não tenho também por você?
Esta é a nossa coisa.
Tem outra entre nós?
Bem que parece que há.
Que outra?
Que devo vê-la quando estou no limite.
Como no limite?
Quando tenho medo de me perder.
Berta estava olhando para ele, com os mesmos olhos de que tinha olhado para os mortos.
Você tem vontade de se perder?
Agora?, disse Ene 2. Agora é o contrário. E isso que estou dizendo parece um encantamento. Quando mal alcanço o limite devo reencontrá-la e sentir o contrário.
É assim toda vez que me vê? Foi sempre assim?
Quase sempre. Como se o encantamento que eu tenho por você faça-a voltar para que eu recomece.
E antes tem vontade de se perder?
Perder-me com aqueles que vejo se perderem. Acabar com a minha agitação.
Mas por quê?, Berta exclamou. Ninguém se perde. Quem você vê se perder?
Quando você está aqui não vejo nada que tenha se perdido.
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Serviço:
- Livro ''Homens e Não'' de Elio Vittorini. Editora Cosac Naify, tradução de Maria Helena Arrigucci, 264 páginas, R$ 40,00.


