LEITURA - Argumento longe do rebanho
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
O leitor que comprar o novo romance do escritor sul-africano J. M. Coetzee, levando em consideração apenas o título, vai levar gato por lebre para casa. O título "A Infância de Jesus" fatalmente sugere um passeio ficcional pelas lacunas da existência do personagem mais cultuado do cristianismo, mas o livro percorre outro caminho.
Em "A Infância de Jesus", que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras, a figura de Jesus Cristo é um detalhe. O simbolismo está presente, pontuando episódios aqui e ali, mas não determina a narrativa. Pode-se dizer que título chega a atrapalhar o romance em sua abrangência, a deslocar o leitor de seu sentido.
Como exímio narrador, John Maxwell Coetzee, ganhador do Nobel de Literatura de 2003, pode ter errado no título, não na obra. Nascido em 1940 na Cidade do Cabo, o escritor retoma o simbolismo presente em seus romances mais antigos, uma das características de sua escrita. Os personagens, provindos de lugares indefinidos rumo a situações incertas, voltam a percorrer corredores kafkianos.
Em "A Infância de Jesus" há um homem vindo de um país desconhecido e chegando num campo de refugiados de um país não nomeado. Na precária viagem de navio conhece um garoto perdido de cinco anos de idade (sem mãe, nem pai, sem passado, sem memória) e se compromete em ajudá-lo a encontrar a mãe.
No novo país (cuja única referência é a língua espanhola) os dois se instalam numa cidade chamada Novilla, recebem uma nova identidade, um novo nome e uma nova idade. Começam tudo do zero. O homem passa a ser Simón, o garoto, David. Simón passa a trabalhar como estivador e nas horas vagas procura pela obscura mãe de David.
Um dos princípios da cidade é de que o passado deve ser enterrado. Todos do lugar recebem a chance de um recomeço, assim devem viver sob a aura do esquecimento. O presente é o único tempo que deve ser levado em consideração. Recomeçar a vida subtende-se apagar as origens e não indagar sobre o futuro.
Em pouco tempo Simón percebe que o lugar é regido por princípios universais higienizados, em tudo há boa vontade e resoluções de sobrevivência. Por outro lado, as vontades, as inclinações e desejos individuais não fazem parte da rotina. Nem os desejos básicos como afeto e sexo. Tudo se apresenta sem sal e sem açúcar, uma existência morna, sem calor ou gelo. A normalidade de tudo está na conformidade e na conformação (essa é uma das estratégias narrativas de Coetzee).
Certo dia, andando por uma estrada, Simón vê uma mulher desconhecida e, por pura intuição, encontra a mãe de David. A moça, chamada Inés, não só adota a maternidade da criança como a sente como fruto de seu ventre. O componente bíblico se fecha como família simbólica: um pai que não é pai (Simón/José), uma mãe que não é mãe (Inés/Maria) e um filho que não é filho de ninguém (David/Jesus). Uma típica família fora dos padrões. Todos num lugar onde não podem permanecer por questões de desencaixe social e deslocamento individual (essa é uma das estratégias de Coetzee para justificar o título do livro).
Nesse jogo todo, Simón é o único que preserva o não esquecimento. Mantém a noção de passado, a ideia daquilo que foi e aquilo que viveu antes de cair em Novilla. É justamente ele o personagem principal, aquele que detém a voz mais lúcida pela dúvida, aquela voz que está fora do sistema, que não se encaixa como a peça ideal. É ele que conduz a reflexão filosófica presente em "A Infância de Jesus". É o contraponto do normativo e da normalidade estabilizada.
As melhores partes da narrativa estão nos diálogos entre David e Simón. Sempre com o garoto fazendo perguntas desconcertantes e o homem tentando responder da melhor maneira possível. Como se o garoto/filho tivesse um mundo próprio que não se encaixasse com o mundo real, o mundo lógico e sistemático. Como se o homem/pai vivesse a obrigação entre os cuidados de uma criança e a realidade do mundo como ele é, entre a filosofia e o concreto, entre a lógica e a imaginação.
Os mais significativos problemas de Simón e Inés começam quando David completa seis anos de idade e precisa entrar na escola. O garoto, de excepcional percepção e inteligência, se recusa a ler, escrever ou fazer operações matemáticas. Seu mecanismo de existência é completamente outro. As normas educacionais não se demonstram interessadas em resolver o problema de visão do aluno, apenas o problema do desencaixe do aluno às normas (essa é outra estratégia da narrativa de Coetzee). A liberdade individual e a tolerância para com a liberdade alheia surgem como subtexto.
Em "A Infância de Jesus", a dúvida é o alicerce. A incerteza dos acontecimentos e a instabilidade dos pensamentos fazem do romance de J. M. Cotezee um exercício de simplicidade. As coisas em si, como elas são (a materialidade da existência), podem ser simples, resolver a realidade imediata da existência, mas não conseguem dominar as forças do impulso em sentir. Pão é bom, mas não basta. É preciso mais vento, mais ar, mais sol para derreter a estrada cuidadosamente pavimentada, linear e decorada com adesivos de felicidade.
Serviço:
"A Infância de Jesus"
Autor J. M. Coetzee
Editora Companhia das Letras
Tradução José Rubens Siqueira
Páginas 304
Quanto R$ 44
Fragmento:
Ela passa talco nele, como se fosse um bebê; ajuda-o a vestir o pijama.
É hora de dormir, mas ele não desiste da história de Marciano. "Pode ser que ele não tenha morrido", diz. "A gente pode ir lá olhar, a Inés, você e eu? Eu não respiro fumaça nenhuma, prometo. Pode?"
"Não faz nenhum sentido isso, David. É tarde demais para salvar o Marciano. E o porão do navio está cheio de água."
"Não é tarde demais! Eu posso mergulhar na água e salvar ele, igual foca. Posso nadar para qualquer lugar. Sou um artista da fuga."
Não, meu menino, mergulhar num porão inundado é muito perigoso, mesmo para um artista da fuga. Você pode ficar preso e não voltar mais. Além disso, artistas de fuga não salvam outras pessoas, salvam a si mesmos. E você não é uma foca. Não aprendeu a nadar. Está na hora de você entender quer ninguém sai nadando ou vira um artista da fuga só porque quer. Precisa de anos de treinamento. E de qualquer jeito, Marciano não quer ser salvo, ser trazido de volta a esta vida. Marciano encontrou a paz. Provavelmente está atravessando os mares neste momento, em busca da próxima vida, livre de tudo. Não precisa ser mais estivador e carregar sacos pesados nas costas. Pode ser um passarinho. Pode ser o que ele quiser."
"Ou uma foca."
(Fragmento de "A Infância de Jesus" de J. M. Coetzee)


