Henry Miller (1891 - 1980) foi um dos escritores norte-americanos que mais sofreram nas garras da patrulha moral. Seus livros, acusados de pornográficos, permaneceram proibidos durante décadas nos Estados Unidos. Nos países europeus em que foram publicados, receberam montanhas de processos. Problemas que não impediram que vendessem milhões de exemplares.
No Brasil, curiosamente, sua obra foi publicada num dos períodos mais repressores da história do país. Entre 1964 e 1969, aportaram nas livrarias ''Trópico de Câncer'' (1934), ''Trópico de Capricórnio'' (1939), ''Sexus'' (1949), ''Plexus'' (1953) e ''Nexus'' (1960), os principais livros escritos por Henry Miller.
O rótulo de ''maldita'' e ôpornográfica" que envolveu sua literatura ao longo do tempo, nos dias de hoje pode parecer desprovido de sentido. Mas o impacto atordoante de sua narrativa continua o mesmo de décadas atrás. Isso fica claro com o lançamento, pela Editora Companhia das Letras, de uma nova tradução de ''Sexus'' primeiro volume da trilogia conhecida como ''A Crucificação Encarnada'', agora traduzida como ''A Crucificação Rosada''.
Como todos os romances de Miller, ''Sexus'' é um relato autobiográfico temperado com alguns elementos ficcionais. Narra o período em que viveu em Nova York, durante a década de 20, trabalhando numa companhia telegráfica e tentando tornar-se escritor.
O romance começa quando Miller conhece June, que se tornaria sua segunda mulher, num bar de ''taxi-girl''. Estonteados por uma paixão avassaladora, passam a viver um amor conturbado pautado pela liberdade. Mesmo vivendo na pindaíba, emprestando um trocado em cada esquina, Miller abandona a esposa e a filha para viver com June (que no livro recebe o nome de Mara e , em seguida, Mona).
''Sexus'' é o relato de um escritor que não escreve. Assume a imagem de artista acumulando informações e percepção para uma explosão próxima. Um homem tentando entender o mundo externo e seu próprio mundo interno. Tentando colocar o próprio ser num eixo próximo do místico estado pleno da existência, experimentando a vida com a sede de um náufrago. A sexualidade entra nesse quadro como um território a ser percorrido sem restrições.
Do princípio ao fim de ''Sexus'', o narrador empreende uma insaciável procura. Focalizando a própria vida como único bem precioso que possui, busca uma lufada de ar puro em cada canto. Todo seu fracasso cotidiano e social é redimensionado para o sucesso do ser incompreendido. Revirando os pólos morais, converte o fracasso numa integridade carregada de virtude. Sua determinação transforma as idéias em gigantes e, com elas, pode re-configurar o mundo de acordo com seus princípios e desejos.
Uma das coisas mais marcantes na literatura de Miller é a exuberância de seu fluxo narrativo. ''Sexus'', assim como ''Trópico de Câncer'' e ''Trópico de Capricórnio'', pode ser descrito como uma corredeira de palavras que, em vários momentos converte-se em cachoeira. Descrições, reflexões, divagações, diálogos, investigações, fantasia, realidade e subjetivismo caminham lado a lado como o fluxo das águas de um riacho.
O leitor que percorrer as páginas de ''Sexus'' em busca do antigo rótulo ''pornográfico'' pode ficar decepcionado. Não pela qualidade, mas pela quantidade. As descrições sexuais de Miller representam algo em torno de cinco por cento das páginas do livro. O mérito delas reside na intensidade e na crueza com que são narradas, algo radicalmente ''escandaloso'' décadas atrás. Um tipo de crueza que tornou-se rotina na literatura produzida nos dias de hoje. Henry Miller foi um pioneiro sem pudores.

Serviço:
- Sexus, de Henry Miller. Editora Companhia das Letras, tradução de Sergio Flaksman, 584 páginas, capa dura, R$ 55,00

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