O moçambicano Mia Couto é hoje um dos grandes escritores da língua portuguesa contemporânea. Sua obra é lida e admirada em toda parte do mundo. Em 2013 foi agraciado com prêmio Camões, considerado o maior dos prêmios literários da língua portuguesa.
Autor de mais de 20 livros (poesia, contos e romances), possui 15 deles publicados no Brasil. Conseguiu a façanha que poucos escritores brasileiros contemporâneos vivos conseguem: ter sua obra incluída nas listas de leitura obrigatória para vestibulares de universidades brasileiras.
Sua literatura está fundamentada em quatro elementos básicos: a língua, o homem, a terra e a tradição. Incorporando a oralidade popular, mitos e lendas, veste a realidade com os tecidos dos oníricos. O ser humano é encarado como elemento de um mundo impalpável repleto de sombras e mais sombras. Os personagens de Mia Couto são típicos analfabetos da felicidade. Numa correlação de linguagem, sua narrativa trafega entre a escrita dos brasileiros João Guimarães Rosa e Manuel de Barros.
Mia Couto, nascido em 1955, é hoje um narrador maduro que domina a arte das palavras de maneira límpida. Seus livros provam isso. Volumes de contos como "Cada Homem é uma Raça" e "Estórias Abensonhadas" deixam isso claro. Romances como "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra", "O Outro Pé da Sereia", "O Último Voo do Flamingo", "Terra Sonâmbula" e "Venenos de Deus, Remédios do Diabo" deixam mais claro ainda.
Agora os leitores brasileiros podem saber como tudo começou. A editora Companhia das Letras está lançando o primeiro livro de prosa escrito por Mia Couto: "Vozes Anoitecidas". Publicado originalmente em 1986, a obra traz 12 contos onde é possível identificar todas as características literárias que fundamentam a literatura do escritor moçambicano. A poesia esfregando seu corpo no corpo da prosa, mitos e lendas se misturando com a realidade, as riquezas da língua oral convertida em escrita, as personagens vivendo às margens do mundo globalizado, as feridas da miséria gravadas no imaginário, as sombras das sombras que dão contorno à ideia de realidade, o sonho que se transforma em matéria e muito mais.
O conto "O Dia em Que Explodiu Mabata-bata" é um bom exemplo disso. Narra a história de um garoto, Azarias (o nome já pronuncia o azar de seu destino), que cuida dos bois de um tio violento. Certa tarde assiste um dos animais explodir no ar como uma bomba mágica. Aterrorizado com a cena, imagina tratar-se de algo do universo das lendas folclóricas de seu povo. Temendo represália do tio pela morte do boi, foge de casa sem destino.
O que o garoto não sabe é que a explosão do boi não tem nada a ver com magia, lenda ou folclore. O animal apenas pisou numa mina terrestre plantada durante a guerra civil. Por meio de uma lenda, e da falta de informação básica, Mia Couto cria uma parábola sobre como a brutalidade da existência é capaz de alterar o destino dos homens e condená-los à ignorância e à morte.
Pelas palavras de abertura de "Vozes Anoitecidas" é possível pensar tratar-se da obra mais engajada de Mia Couto: "O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem em si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes."
Mas a sequência de contos de "Vozes Anoitecidas" demonstra que esse pensar é simplista demais. Mia Couto apresenta uma sucessão de narrativas onde as linhas da realidade e da imaginação são trançadas como necessidade de vida, como um dos únicos elementos disponíveis na dificuldade de existência, como elemento ancestral de construção da abstração da sobrevivência. A aldeia é transformada em mundo sem barulho, sem ruído ou alarde.
Entre os elementos da literatura consagrada de Mia Couto que aparecem "Vozes Anoitecidas" está um dos principais: a linguagem. A criação de palavras, inversão do sentido de frases e, principalmente, a forma poética de dizer, estão presente. Coisas como desouvir diante do desdizer. Ou admitir que a mentira da noite é matar o cansaço dos homens.

Serviço:
"Vozes Anoitecidas"
Autor – Mia Couto
Editora – Companhia das Letras
Páginas - 152
Quanto - R$ 35 e R$ 24,50 (e-book)

De repente, o boi explodiu. Rebentou sem um múúú. No capim em volta choveram pedaços e fatias, grãos e folhas de boi. A carne eram borboletas vermelhas. Os ossos eram moedas espalhadas. Os chifres ficaram num ramo qualquer, balouçando a imitar a vida, no invisível do vento. O espanto não cabia em Azarias, o pequeno pastor. Ainda há um instante ele admirava o grande boi malhado, chamado de Mabata-bata. O bicho pastava mais vagaroso que a preguiça. Era o maior da manada, régulo da chifraria, e estava destinado como prenda de lobolo do tio Raul, dono da criação. Azarias trabalhava para ele desde que ficara órfão. Despegava antes da luz para que os bois comessem o cacimbo das primeiras horas. Olhou a desgraça: o boi poeirado, eco de silêncio, sombra de nada. "Deve ter sido um relâmpago", pensou. Mas relâmpago não podia. O céu estava liso, azul sem mancha. De onde saíra o raio? Ou foi a terra que relampejou? Interrogou o horizonte, por cima das árvores. Talvez o ndlati, a ave do relâmpago, ainda rodasse os céus. Apontou os olhos na montanha em frente. A morada de ndlati era ali, onde se juntam todos os rios para nasceram da mesma vontade de água. O ndlati vive nas suas quatro cores escondidas e só se destapa quando as nuvens rugem na rouquidão do céu. É então que o ndlati sobe aos céus, enlouquecido. Nas alturas se veste de chamas, e lança o seu voo incendiado sobre a terra. (Fragmento do conto "O Dia em Que Explodiu Mabata-bata" que integra o livro "Vozes Anoitecidas" de Mia Couto)
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