LEITURA - Amor é febre
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de dezembro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A literatura do escritor paulista Marçal Aquino sempre foi marcada por elementos da violência urbana. Mais que isso, marcada pela vida que incorporou normas pouco pacíficas em seu cotidiano como método de sobrevivência ou defesa. Algo que permanece silencioso nos buracos da sociedade.
Em seu novo romance lançado pela Companhia das Letras, ''Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios'', Marçal Aquino rompe com essa marca para narrar uma história de amor. Sem um único pingo de açúcar, apresenta uma história de amor dançando no limite do abismo. Trabalha com a violência num plano sentimental, a que nasce da incapacidade dos amantes em evitar a auto-destruição causada pela revolução da paixão.
A estrutura narrativa de ''Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios'' comporta, na verdade, duas histórias. No mesmo ponto da varanda de uma pensão na região de garimpo do Pará, duas memórias se encontram em cumplicidade. De um lado, a história de um amor mental, onde um homem dedica sua existência a uma mulher que nunca tocou e sempre amou. De outro lado, a história de um amor carnal, onde um homem dedica sua existência para manter a proximidade física da mulher que ama.
Nesse contraponto de pólos amorosos, Marçal centra foco na história de Cauby, um fotógrafo que parte para a jornada de fotografar prostitutas que trabalham nos garimpos do Pará. Lá ele conhece Lavínia, esposa de um pastor evangélico. Desse encontro nasce uma paixão clandestina que levará ao colapso, tanto Cauby como Lavínia.
A dualidade perpassa vários elementos do romance. O mais evidente reside na personagem Lavínia. Trata-se de uma mulher dividida entre o marido e o amante, entre a segurança e o risco. Além disso, sua personalidade possui uma clássica dualidade, a face contida e a face expansiva, a melancólica e a alegre, a santa e a perversa. Em suma, o natural conflito interno que proporciona conflitos externos.
Ao lado da fúria da paixão, a história de ''Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios'' acontece numa cidade que abriga um exército de garimpeiros. Também abriga empresas mineradoras que concorrem de maneira desleal com os garimpeiros. Ambos disputam o mesmo espaço de trabalho, transformando o lugar num barril de pólvora, onde a fúria é latente.
A narrativa de Marçal Aquino, pautada pela oralidade, é repleto de nuances que revelam surpresas de maneira ininterrupta. Um dos grandes escritores da atual literatura brasileira, inexplicavelmente ainda é desconhecido por um grande número de leitores. Suas histórias não trazem uma literatura complexa, mas uma escritura sedutora, que revela elementos como se riscasse um fósforo através de uma condução narrativa altamente bem realizada.
O final de ''Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios'' traz uma novidade. Embora distante de um chamado ''final feliz'', as últimas linhas do romance traz uma boa dose de otimismo, algo extremamente raro nas obras de Marçal como ''Cabeça a Prêmio'' (Cosac Naify, 2003), ''Faroestes'' (Ciência do Acidente, 2001), ''Famílias Terrivelmente Felizes'' (Cosac Naify, 2003) e ''O Amor e Outros Objetos Ponteagudos'' (Geração Editorial, 1999).
Não se trata de um otimismo primário e meloso. Pelo contrário, um otimismo doloroso, carregado de sequelas que nem a fúria dos astros é capaz de adocicar. Esse otimismo é trabalhado como uma dor que aceita sua situação e contexto, que opta pelo amor que não possui saída, aquele que sumariamente se apresenta como abismo, e por isso, exige sempre o próximo passo. Até atingir os nervos do ar.
Serviço:
- Livro ''Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios'', de Marçal Aquino, Editora Companhia das Letras, 232 páginas, R$ 37,00.


