O pior dos crimes não é aquele em que a vítima é uma pessoa anônima, uma pessoa aleatória, sem rosto. O pior dos crimes é aquele em que a vítima é uma pessoa próxima, uma pessoa que ama o criminoso.
Esse é o principal argumento da escritora inglesa Sophie Hannah em seu romance policial "A Vítima Perfeita" que acaba de ser lançado pela editora Rocco. Hannah é uma das autoras convidadas da Flip 2015, a Festa Literária Internacional de Paraty que acontece entre os dias 1 e 5 de julho próximo. Além de lançar no Brasil "A Vítima Perfeita", ela participa da mesa "De Frente Para o Crime" ao lado do escritor cubano Leonardo Pandura.
Nascida em 1971, na cidade de Manchester, Sophie Hannah é atualmente o nome mais cultuado do romance policial inglês. Foi a única autora escolhida pelos herdeiros do espólio de Agatha Christie (1890 – 1976) para desenvolver um novo romance protagonizado pelo detetive Hercule Poirot, um dos personagens mais famosos da dama da ficção de mistério. A obra, "Os Crimes do Monograma", que aparece devidamente assinada por Agatha Christie e Sophie Hannah, foi lançada no Brasil no final de 2014 pela editora Nova Fronteira.
Em "A Vítima Perfeita" tudo começa quando Naomi, uma mulher independente de sucesso, vai até uma delegacia de polícia prestar queixa do desaparecimento de Robert, seu amante casado. Pelo fato de Robert (um caminhoneiro que leva uma vida dupla) não ter comparecido ao encontro semanal que acontece há dois anos (sempre no mesmo dia da semana, no mesmo horário e no mesmo quarto de hotel), Naomi acredita que algo de ruim aconteceu com o amante. Como a polícia não dá a mínima para o caso de um amante desaparecido, a mulher inventa uma nova história: ela teria sido estuprada por Robert.
Nas primeiras páginas de "A Vítima Perfeita", o leitor tem a sensação de estar diante de um crime de salão de beleza. Enquanto a vítima, uma cliente, recebe uma escova progressiva, a manicure investiga os esmaltes e a pedicura, louca de acetona, percebe que a proprietária do salão retira uma faca da gaveta entre xampus e condicionadores.
Somente após cento e poucas páginas, o salão de beleza se desfaz para dar lugar a um campo de violência invisível. No enredo criado por Sophie Hannah, não há corpos trucidados, nem cabeças decepadas. Não há tiros, nem facadas. Não há sangue. A autora segue com fidelidade a linha do romance policial psicológico. A grande violência acontece na cabeça das personagens.
A violência invisível em questão é o estupro. Aparecem homens que montam um show de violência sexual. Numa espécie de teatro, de um lado surgem os estupradores, de outro os espectadores do estupro que apreciam a cena entre vinhos e pratos gourmets. No meio dos dois grupos, estão as vítimas, mulheres que em nome da vergonha, e da necessidade de apagarem os acontecimentos de suas vidas, não denunciam os crimes.
Sophie Hannah trabalha com a possibilidade de que o equívoco nos jogos afetivos é capaz de aniquilar as mulheres. Há as mulheres vítimas de abuso sexual que se apaixonam por seus abusadores. Há os homens que acreditam que as mulheres possuem o desejo latente de serem violadas.
O grande crime da trama do romance está nas mãos do sujeito que se dedica a conquistar o amor de mulheres vítimas de violência sexual. Seu perfil é do homem amável que se aproveita da vulnerabilidade afetiva de mulheres traumatizadas por estupros.
A personagem principal, Naomi, chega à conclusão de que existe um crime sobre o crime. O pior dos crimes não seria o estupro. O pior dos crimes estaria nas consequências psicológicas de amar alguém que manipulou os fatos para violar afetivamente uma mulher que já foi violada sexualmente. Amar o inimigo seria um tipo de descoberta constrangedora.
O detalhe do enredo de "A Vítima Perfeita" está em colocar a mulher vítima como a grande alucinadora dos crimes. A polícia e os detetives não chegam a tal façanha. Um dos detetives que investigam o caso, por exemplo, é Charlie, uma mulher forte de coração partido. E é justamente ela que acaba caindo nos sedutores braços vilão como nova vítima.
A questão não é mais o tipo de sofrimento que uma pessoa consegue suportar, mas o tipo que sofrimento que a outra pessoa é capaz de causar. E amar o responsável por tudo isso seria algo incomensurável. Uma montanha no interior da garganta.

Serviço:
"A Vítima Perfeita"
Autor – Sophie Hannah
Editora – Rocco
Tradução – Alexandre Martins
Páginas – 432
Quanto – R$ 39,50

Tiro o telefone do bolso, pensando em amor, em distância de ferir. Graças à conversa com seu irmão eu entendo você melhor do que entendia antes. Descobri sozinha que você queria ferir as mulheres, e que precisava que elas primeiro o idolatrassem de modo a ampliar a dor até que fosse insuportável, mas não era apenas isso, era? Sua psicose é como um – como é o nome daquelas coisas? Isso: palíndromo. Também funciona ao contrário. Amor e dor estão intrinsecamente ligados em sua cabeça. Você acreditava que apenas se ferisse e agredisse mulheres, elas iriam realmente amá-lo. O legado da querida mãe. Por mais que tivesse amado sua mãe antes dela abandoná-lo, a amou ainda mais depois, não foi? (Fragmento de "A Vítima Perfeita" de Sophie Hannah)
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