Água e óleo num mesmo copo. Embora diferentes, os dois elementos são impelidos a estabelecer uma relação de amizade. Um pode aceitar a realidade da situação. Outro pode se rebelar contra ela. Nos dois casos, estarão sempre lado a lado, no mesmo copo, no mesmo barco.
Óleo e água podem ser considerados os dois personagens principais de ''Cinzas do Norte'', obra do escritor amazonense Milton Hatoum que chega às livrarias esta semana em uma nova edição em formato de bolso. Lançado originalmente em 2005, o romance apresenta uma história onde a aceitação e as rebeldias se encontram para acertar arestas. Como resultado desse encontro, o mundo se revela entre cortes e machucados. Entre feridas e enfermidades.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ''Cinza do Norte'' traz ambiente semelhante ao retratado em outros romances de Milton Hatoum, onde o universo familiar é o palco das mais ásperas batalhas. O autor cria uma correlação de forças entre o ambiente externo e o ambiente familiar, entre os dramas familiares e o período histórico do regime militar brasileiro.
A obra narra a história da trajetória dos amigos Raimundo, mais conhecido como Mundo, e Olavo, mais conhecido como Lavo. Uma relação que começa na infância, atravessa a juventude e chega até a idade adulta numa coleção de encontros e dramas. Tudo tendo como cenário os rios e bairros da cidade de Manaus.
Raimundo nasceu numa família rica e sempre esteve interessado em subjetividades. Olavo, por outro lado, órfão, cresceu numa família pobre e sempre esteve interessado em objetividades. A partir desse antagonismo, o autor cria um conflito dramático simbólico entre a objetividade e a subjetividade dentro de um contexto histórico específico. Nas palavras do próprio Hatoum, seu objetivo era escrever ''a história moral de sua geração''.
Os próprios apelidos dos personagens oferecem elementos metalinguísticos para uma leitura da narrativa: Lavo é o encarregado de ''lavar'' o ''mundo'' do amigo Mundo. Ocupando o papel de narrador, Lavo realiza o trabalho de desnudamento da história de Mundo. Seu papel é retirar as substâncias que ocultam a verdade.
Desde a infância, Mundo se interessou pelas artes. Com o apoio da mãe percorreu a estética das artes plástica com determinação e originalidade. O pai, ao contrário, sempre cobrou do filho uma carreira empresarial para perpetuar a fortuna da família. A guerra de forças entre o lado materno e o lado paterno se revela evidente. No meio da batalha, Mundo enfrenta a sufocante autoridade do pai e sempre acaba se refugiando no aconchego da mãe.
Lavo, por outro lado, viveu o caminho inverso. De origem humilde, luta com afinco para se estabelecer na vida, buscando sobreviver a todo custo. Segue firme nos estudos para se tornar advogado bem sucedido, pois não tem nada e ninguém a recorrer.
Hatoum desenha Mundo como rebelde, tanto no universo comportamental como no estético e no político. Alguém que realiza a escolha de bater de frente contra a realidade. Desenha Lavo como o sujeito obediente, tanto no universo comportamental como no estético e no político. Alguém que percorre a existência aceitando a realidade da maneira como ela se apresenta.
A partir dessa matemática do conflito, ''Cinzas do Norte'' traz um leque angustiado dos impasses mais íntimos, familiares e sociais, de um emblemático período histórico do país. Impasses que seguem a correnteza da aflição diante da fatal fragilidade que envolve o ser humano. Algo como uma tentativa de compreender questões que suplicam por clareza e, ao mesmo tempo, inventam sombras e esconderijos.

Serviço
-Cinzas do Norte
Autor - Milton Hatoum
Editora - Companhia das Letras
Quanto - R$ 23 (240 págs.)

Pensei também nas acusações que ele me fizera: o egoísmo, a falta de atenção com meu amigo, o trabalho presunçoso, a cegueira profissional. Talvez fossem acusações de um homem enlutado e desesperado, que perdera a grande aposta de sua vida bem antes do fim. De nada adiantava dizer a ele que Mundo sempre fora arredio, ainda que tivesse me contado episódios da infância, expressando a angústia de ter de enfrentar o pai, dentro e fora de casa, como se esse enfrentamento fosse o móvel de sua vida e de sua arte inacabada. Mundo sabia que dificilmente eu sairia de Manaus; nas cartas que lhe enviei, insisti nesse assunto, dizendo que minha cidade era minha sina, que eu tinha medo de ir embora, e mais forte que o medo era o desejo de ficar, ilhado, enredado na rotina de um trabalho sem ambição.
(Fragmento de ''Cinzas do Norte'', de Milton Hatoum)

mockup