O jogador recupera uma bola na grande área e parte para o contra ataque. Com grande velocidade atravessa o campo, deixa para trás dois adversários desgovernados. O goleiro avança em sua direção a todo vapor, mas fica no chão vendo jogador e bola seguir em frente.
O jogador não chuta para o gol. Pelo contrário, com o pé coloca a bola, estática, em cima da linha do gol. O estádio cai, em questões de segundos, em silêncio. Os adversários, desesperados, correm para tirar proveito da insanidade do jogador, que tinha o gol nas mãos.
No momento exato, antes da interferência dos adversários, o jogador, com um leve movimento dos pés, rola a bola alguns centímetros depois da linha e torna a pará-la. Gol.
Tudo acontece em questão de segundos, mesmo assim tempo e espaço são colocados em reflexão. O jogador coloca em questão o ínfimo limite entre o gol e sua ausência. Entre uma coisa e outra. Muito distante de humilhar o adversário, o jogador apresenta a idéia de que ele, através de sua ação, determina a realidade através de opções.
Anos depois, este mesmo jogador está diante de um revólver apontado para seu peito. Quem empunha a arma é sua esposa que, cansada das traições do marido, deseja descarregar toda sua fúria e raiva através da pólvora. Ela vive o mesmo instante vivido pelo jogador no campo. Com um leve movimento dos dedos, tem a possibilidade de disparar a arma. E dispara. Nada mais do que o limite invisível que separa o ''ainda não'' e o ''já foi''. Gol ou bala.
Essa história sobre o caráter tênue dos limites, onde tempo torna-se aquilo que acontece na mente das pessoas, e espaço aquilo que ocorre a partir de seus corpos, está presente na literatura do escritor espanhol Javier Marías. Uma história que integra o livro ''Quando Fui Mortal'' lançado pela Editora Companhia das Letras.
O volume reúne doze contos de Javier Marías escritos sob encomenda para revistas e jornais ao longo da década de 90. O que seria uma experiência considerada menor, devido às exigências referentes ao tema e ao tamanho dos textos, nas mãos do escritor tornou-se uma espécie de desafio literário onde a diversão do ato da escrita fez parte da aventura.
Estabelecer uma relação entre os contos de ''Quando Fui Mortal'' seria como costurar uma colcha de retalhos de diversos tecidos. Trabalhando com uma ampla variedade temática, Javier Marías não possui nenhum interesse em desenvolver uma unidade. Até porque, de acordo como foram criados, os textos funcionam de maneira totalmente independentes no interior do livro.
''Quando Fui Mortal'' é repleto de surpresas. É possível sair de histórias onde o acaso opera com associações matemáticas e cair em histórias em que teorias sobre a dura existência dos fantasmas ocupam lugar de destaque. Se existe um possível elemento de ligação entre os contos, ele reside na possibilidade no deslocamento do fim, ou da morte, em direção a outras possibilidades de continuidade da memória.
Em alguns casos, o narrador não existe, ou melhor, o narrador é aquele que deixou de existir ou presenciou situações em que a vida funcionava como um jogo. Um tabuleiro onde cada um faz uso das regras a partir de uma maneira particular de entendimento.
No conto ''Menos Escrúpulos'', por exemplo, Javier Marías narra a história de uma moça comum que, perante a falta de grana, resolve se candidatar a uma vaga de atriz de vídeo pornô. Em sua primeira empreitada, antes do início das filmagens, é colocada numa sala de espera, na qual também está o ator que será seu futuro parceiro de cena. Da conversa convencional entre ambos, nasce um relato que assume detalhes que fogem completamente ao futuro das filmagens. Algo como dizer que o amanhã é o hoje com outro vestido.
Javier Marías é uma dos nomes representativos da literatura espanhola contemporânea. Arrebatador de um grande número de leitores na Europa, possui quatro romances publicado no Brasil, ''Coração Tão Branco'' (Martins Fontes, 1995), ''Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim'' (Martins Fontes, 1997), ''Seu Rosto Amanhã'' (Companhia das Letras, 2003) e ''O Homem Sentimental'' (Companhia das Letras, 2004).

Serviço:
- ''Quando Fui Mortal'' de Javier Marías, Editora Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 164 páginas, R$ 35,00.

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