Há leitores que se relacionam com os livros apenas de maneira intelectual. Há também leitores que se relacionam com os livros de maneira física, além de intelectual. São aqueles que consideram a leitura tanto uma experiência sensorial como uma experiência mental.
Para esses leitores, a Editora Cosac Naify está lançando um verdadeiro banquete: ''Bartleby, o Escrivão'', novela do escritor norte-americano Herman Melville (1819 - 1891). A edição, além de obra literária, é um conceito estético, uma experiência de leitura.
O livro é costurado em suas duas extremidades. Ou seja, um livro lacrado, que nunca foi folheado por ninguém. Para abri-lo, o leitor precisa romper a costura do lado direito com o auxílio das mãos ou de uma tesoura. Cumprida a tarefa, encontra todas as páginas grudadas, em dupla, sem o devido refile industrial. Folheando, o leitor terá acesso apenas a fotografia de uma parede que se repete continuamente com forte cheiro de tinta.
Após a descoberta, para ter conseguir ler o texto, o leitor terá que, literalmente, romper manualmente suas páginas, desvirginá-las sucessivamente. Com o auxílio de uma régua, faca ou tesoura, terá que cortar cada página, uma a uma, numa experiência de ''construção'' do objeto livro antes da leitura.
''Bartleby, o Escrivão'' é um dos textos mais interessantes de Herman Melville, mas conhecido como autor do clássico ''Moby Dick'' (1855) romance que narra a obsessão do capitão Ahab em caçar a baleia branca mais ''demoníaca'' dos mares. Vários pesquisadores apontam a novela como precursora da literatura do escritor tcheco Franz Kafka (1883 - 1924). Obras como ''A Metamorfose'' e ''O Castelo'' possuem elementos semelhantes aos trabalhado por Melville em ''Bartleby''.
A novela de Melville é o testemunho de um advogado sobre a história de um escrivão chamado Bartleby. Tudo começa quando o narrador contrata Bartleby para trabalhar em seu escritório. O rapaz se revela um ótimo funcionário até o dia em que, sem nenhum motivo concreto, ele se recusa executar um trabalho. Suas únicas palavras são: ''Acho melhor não.''
Com o passar dos dias, Bartlebly se recusa a executar uma tarefa após outra, alegando apenas ''acho melhor não''. O patrão procura uma solução para a absurda situação, mas nada consegue. O escriturário, então, passa todo horário de trabalho sentado em sua escrivaninha, olhando para a parede, em silêncio, sem fazer nada.
Na sequência, Bartleby passa a morar em sua sala de trabalho, onde faz suas refeições e dorme, sem nunca sair do escritório. Simplesmente o advogado não consegue se livrar do funcionário, nem mesmo despedindo-o. O último recurso encontrado é mudar para um novo escritório, um novo imóvel, deixando o escriturário para trás. Mas nem mesmo esse recurso surte efeito, a situações se revela insolúvel.
Melville desenha dois planos para os personagens. De um lado Bartleby caminhando em direção ao nada, ao silêncio, ao vazio absoluto. A não-ação que altera as coisas à sua volta. De outro, o advogado percorrendo um labirinto sem fim, onde nenhuma ação altera a realidade. A ação que não altera as coisas à sua volta.
''Bartleby, o Escriturário'' já rendeu dezenas de leituras e abordagens. A mais recente delas foi realizada pelo espanhol Enrique Vila-Matas em ''Bartleby e Companhia'' (Cosac Naify, 2004). A obra, uma mistura de ensaio e ficção, é narrada por um escriturário que luta para tornar-se escritor. O drama é que não consegue escrever. Por mais que tente, estude e se dedique, as palavras simplesmente não se acontecem. Define seu estado como ''síndrome de Bartleby''.
Nessa situação, embarca na aventura de caçar todos os escritores vítimas da ''síndrome de Bartleby'' ao longo da história da literatura. Criadores que desistiram de concretizar a obra que imaginavam, aqueles optaram pelo ''acho melhor não''. Poetas e prosadores que desistiram da literatura para cultivar o silêncio, que optaram pela não-ação das letras, que escolheram pela ''literatura do não ''.

Serviço:
- Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville. Editora Cosac Naify, tradução de Irene Hirsch, posfácio de Modesto Carone, projeto gráfico de Eliane Ramos, 88 páginas, R$ 29,00.

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