LEITURA - Afeto em transe
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
As cenas mais emblemáticas de um casamento aparecem quando ele está se desfazendo. A tranquilidade da união pode passar despercebida, mas os escandalosos terremotos da desunião não. São trovoadas capazes de revelarem coisas nunca vistas, sentimentos que nunca foram expostos à luz do dia.
Em seu novo romance, ''Outra Vida'', o escritor carioca Rodrigo Lacerda apresenta as tempestades de um casamento abandonando o cárcere escuro e caminhando em direção ao banho de sol. Revela uma união se desfazendo aos poucos até chegar ao ponto onde nem homem nem mulher conseguem fechar os olhos no breu.
''Outra Vida'' traz uma história que acontece em poucas horas. Do momento em que um casal chega à rodoviária de uma grande cidade, até o instante em que embarca num ônibus, com destino a uma pequena localidade litorânea. Nesse pequeno espaço de tempo, todos os anos de casamento, todos os dramas silenciados e ocultos ao longo do tempo, escapam ao controle. Os processos internos de marido e mulher, confinados numa caldeira em anos, resolvem respirar ar puro. O exato momento em que a caldeira explode.
Em ''Outra Vida'', homem e mulher se casam após uma gravidez inesperada. Ele, um humilde filho de açougueiro. Ela, filha de uma tradicional família de empresários. Com a ajuda de amigos políticos da família dela, ele consegue um emprego num órgão público. Ela, após o nascimento da filha, passa a atuar como gerente de butique de shopping.
Com o peso da realidade caindo no teto, o homem é seduzido pelo encanto do dinheiro que a esposa tanto reclama, por uma momentânea e inofensiva corrupção de licitação governamental. Coisa comum nos corredores públicos, onde nenhuma verdade mostra sua face real. Como ingênuo sujeito ele, de repente, vê a falcatrua sendo descoberta e ganhando manchetes dos jornais e destaque nos telejornais.
Diante da situação, simplesmente assume o erro, devolve o dinheiro conquistado ilegalmente e conta toda a verdade, todos os nomes e ações. O irônico drama é que tudo e todos esperavam que ele não admitisse a corrupção, que negasse o erro. Esperavam que inventasse alguma desculpa, alguma artimanha para contornar o problema mais comum das estruturas públicas brasileiras.
Para começar outra vida, purificada, decide largar tudo e voltar para a pequena cidade dos pais. É nesse momento, com mulher e filha na rodoviária, que todo o passado é reconstituído na cabeça de cada um. Como se um funil colocasse a vida num único ponto. Aquele ponto onde a possibilidade da verdade sai do casulo e bate as asas.
O narrador encarregado de revelar a história de ''Outra Vida'' entra dentro das entranhas dos personagens e descreve tudo que encontra pela frente. Realiza numa espécie de autópsia de cada sentimento, de cada razão. Do amor e da ética. Percorre as amplas galerias do pensamento masculino e do feminino repleto de contradições.
Rodrigo Lacerda deixa claro que seu interesse está numa temática contemporânea, buscando um equilíbrio entre as referências do Brasil público e as referências do País privado com suas intrincadas relações afetivas e familiares. Cria duas fortes personagens que, pelo antagonismo, se aproximam para entender que a proximidade é um processo de tempo variável e incerto.
Tudo acaba. Parece ser uma certeza. Mas também tudo recomeça após a fumaça do fim. Apesar de todo o drama presente em ''Outra Vida'', Rodrigo Lacerda instaura um sutil otimismo sobre as relações afetivas. Algo que realizou, com maior ênfase, em seu romance anterior, ''O Fazedor de Velhos'' (Cosac Naify, 2008). Como se todo começo de uma relação amorosa fosse correspondente ao seu desmantelamento. Como se apenas o fim tivesse condição de revelar o todo. Um tempo onde somente o desmantelamento é capaz de revelar detalhes.
SERVIÇO
- Outra Vida
Autor - Rodrigo Lacerda
Editora - Alfaguara
Quanto - R$ 39,90 (184 pág.)
Fragmento de ''Outra Vida'' de Rodrigo Lacerda
''O resultado daquela brincadeira, contudo, foi muito além do que ele poderia imaginar. Semanas depois, a filha procurou-o para ajudá-la a abrir suas bonecas. O pai, meio atônito, demorou a identificar de onde viera a ideia. Tentou demovê-la, dizendo que iria estragá-las, mas a menina insistiu. Então, enquanto estripava as bonecas, sentindo-se um novo tipo de assassino, de tarado, recriminou-se por ter aceitado fazer o serviço sujo e ficou com medo de a mulher, chegando em casa, ver e ficar brava.
'Que qui tem dentro dessa?', a menina perguntava a cada boneca que abriam, com o jeito de falar que ainda tinha na época. Estava realmente disposta a tirar a limpo; era palha, espuma, macela ou elástico? Depois da terceira ou quarta boneca, intrigado com aquela curiosidade mórbida, o pai perguntou à menina do que ela achava que ele era feito por dentro. Levou um susto quando a filha, sem hesitar, respondeu:
'De puma.'
Estranhando a convicção, ele quis saber mais:
'E por que de espuma?'
'O papai é mole.'
Era uma frase que o homem já devia ter ouvido da esposa mais ou menos um milhão de vezes.''
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