LEITURA - Abraços do vento
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de outubro de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Buscar algo que não sabe num lugar desconhecido. Essa é a jornada do personagem principal do primeiro romance do poeta paulista Fabrício Corsaletti. Vivendo um autoexílio na cidade de Buenos Aires, sua tarefa básica é simplesmente vagar por bares e ruas desprovido de qualquer propósito. Comer, beber, perambular e mais nada. Até o dinheiro acabar.
''Golpe de Ar'', lançado pela Editora 34, é uma espécie de diário de um vagal em terra estrangeira. Não possui um enredo no sentido clássico, mas uma sucessão de pequenos acontecimentos. A história narrada por Corsaletti se restringe ao fato de que, certo dia, o personagem assiste seis garotas invadirem seu apartamento. Jovens brasileiras passando as férias em Buenos Aires.
Aquilo que antes era um perambular solitário se transforma numa festiva maratona coletiva repleta de bebedeiras e desejos juvenis. A diversão assume a imagem do maior bem que o mundo é capaz de oferecer sem mistérios profundos ou grandes complicações. Uma jornada nos braços do vento.
Você publicou vários livros de poesia e agora vem se dedicando ao conto e ao romance. O que você levou da poesia para a prosa?
Até os 26 anos eu só escrevia poesia, mas em algum momento precisei escrever sobre certas experiências que, logo me dei conta, pediam para ser escritas em prosa. Foi assim que surgiu o volume de contos ''King Kong e Cervejas'' (Companhia das Letras, 2009). Mas me sinto sempre poeta - não parei de escrever poesia -, mesmo quando escrevo prosa. Tanto pela percepção quanto pela linguagem, que, se não estou enganado, tem muitas semelhanças.
O enredo de ''Golpe de Ar'' tinha tudo para se transformar numa epopéia sexual juvenil, mas a narrativa aposta nas relações de amizade. Porque você optou por esse caminho?
Do meu ponto de vista, ''Golpe de Ar'' é um livro cheio de erotismo, ainda que na história toda haja apenas uma trepada. Mas meu objetivo era expressar um certo clima, e não ficar falando de sexo, coisa aliás bastante difícil de fazer direito. Se você não é um Philip Roth, pode cair na vulgaridade mais chulé.
A diversão ocupa lugar de destaque nos acontecimento de ''Golpe de Ar''. Havia algum interesse de fazer um retrato comportamental de época?T
Não, não pensei nisso enquanto escrevia o livro.
Mas você não considera o romance um recorte dos desejos e ímpetos da juventude dos tempos atuais?
Não sei. Talvez a novela seja o retrato de uma fatia muito específica da juventude de hoje, a das paulistanas bem nascidas, filhas de intelectuais e que estudaram em colégios alternativos. Eu não arriscaria afirmar nada além disso.
Você enxerga algum paralelo entre ''Golpe de Ar'' e ''Tanto faz'' de Reinaldo Moraes da década de 80?
Enxergo, sim. Já li o ''Tanto Faz'' umas quatro ou cinco vezes, é um baita livro, e acho que me ajudou a entender o enredo, ou a ausência de enredo, do ''Golpe de Ar''. Outros três livros que devem ter me influenciado são: ''O Jogo da amarelinha'', do Cortázar, ''Paris é uma Festa'' e ''O Sol Também se Levanta'', do Hemingway.
Porque a escolha de Buenos Aires como cenário?
Morei lá por seis meses em 2005, e quando voltei senti necessidade de escrever sobre essa temporada.
Fragmento de Golpe de Ar de Fabrício Corsaletti
Era uma rua pequena e arborizada. Havia apenas um carro estacionado diante do hotel Plaza Francia e nenhum hóspede na calçada. Paramos de falar e ouvimos o barulho de um papelão que o vento arrastou no asfalto. As copas das árvores filtravam o sol, as nuvens estavam na distância certa. A mão de Lis era um segredo poderoso que eu levava dentro da minha. Nesse momento, sentado numa cadeira de rodas, um paraplégico surgiu na esquina. Um homem empurrava a cadeira. Passamos por eles. Lis me olhou como quem tivesse acabado de se lembrar que o amor é uma exceção e que a vida pode ser apenas uma coisa triste.
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SERVIÇO
■ Golpe de Ar
Autor - Fabrício Corsaletti
Editora - 34
Quanto -
R$ 26
(96 pág.)


