Quando o prêmio Jabuti 2013 foi anunciado na semana passada, entre os vencedores estava Ademir Assunção na categoria poesia com a obra "A Voz do Ventríloquo". Velho conhecido da cidade, onde viveu a década de 80 (primeiro como estudante da UEL, depois como repórter da Folha de Londrina), Ademir é um incansável militante da poesia.
Autor de dez livros, sua obra trafega entre a palavra escrita e a palavra falada com desenvoltura. "A Voz do Ventríloquo", publicado pela editora Edith, é um de seus livros mais rebeldes. Uma sucessão de bordoadas de todos os lados. Traz uma leitura cruel do mundo contemporâneo onde as pessoas estão cada vez mais reféns de sistemas corporativos onde a vida transformou-se em mercadoria.
"A Voz do Ventríloquo" possui uma estrutura diferenciada. É dividido em sete partes que representam sete noites da fala de um ventríloquo que representa a linguagem. Cada noite com suas sobras, fantasmas e revelações. Com uma poética madura, os poemas deixam claro que a existência briga por algum sentido.
A seguir, Ademir Assunção fala do Jabuti, de sua poesia e de sua relação com Londrina.

Você imaginava que "A Voz do Ventríloquo", publicado por uma pequena editora, poderia ganhar o Jabuti de poesia?
Sinceramente, não imaginava. Alegra-me trazer esse prêmio também para a Edith, uma editora minúscula, mas que tem um trabalho editorial de alta qualidade. Estou falando do alto potencial da arte e do pensamento em perceber, criticar e reimaginar o mundo em que estamos vivendo. É bacana receber esse prêmio, mas não me envaideço. Poesia não tem nada a ver com vaidade. Não me considero melhor do que muitos outros poetas que estão escrevendo com vigor e intensidade. Quero dedicar este Jabuti, aliás, a dois grandes poetas que jamais o receberam: Roberto Piva e Augusto de Campos.

Os poemas de "A Voz do Ventríloquo" batem de frente com o efeito anestésico da vida contemporânea. Você acha que as pessoas deixaram de ser humanas para se tornarem consumidoras?
Há uma máquina voraz em funcionamento, que enxerga as pessoas não como indivíduos, mas como consumidores em potencial. As pessoas valem não pelo que são, mas pelo tanto que elas podem comprar. Isso está acontecendo em todos os setores, da fé religiosa à arte. As cidades não andam mais e todos os dias mais carros são colocados nas ruas. A especulação imobiliária desfigura os bairros das cidades cotidianamente. Rádios e televisões nos entopem os ouvidos e os olhos com programações de baixíssima qualidade. A violência aumenta de maneira assustadora nas ruas das grandes e médias cidades. Feridas seculares continuam abertas e vão continuar expelindo seu pus sobre a cabeça de todos nós. É chato dizer isso, mas é mentira? Há um descompasso enorme entre o ser e o ter. Grande parte dos poemas do livro revela o desconforto de se viver numa realidade como esta.

Vivemos numa época de quantidades colossais de informações disponíveis no universo virtual. Qual o sentido da poesia nesse universo?
Sim, estamos expostos a uma quantidade colossal de informações, mas me pergunto: há uma quantidade colossal de conhecimento circulando? Não estou convencido disso. Informação não é o mesmo que conhecimento. Dentro da lógica voraz de consumo, a informação se torna também uma mercadoria e grande parte desse volume colossal é descartável, dura pouco tempo e logo é substituído por outro. Conhecimento demanda tempo, dedicação e espaço para vivenciá-lo. A poesia não é um produto moldado para os caprichos do consumo. Compreender um grande poema, mesmo que seja um minúsculo haikai de três linhas, nos faz compreender melhor a nós mesmos. A essa altura da vida, não tenho a menor dúvida de que um poema como "Uivo", de Allen Ginsberg, ou "Eu andava assim tão distraído", de Maurício Arruda Mendonça, melhorou a minha percepção. Este não seria um dos sentidos da poesia, tornar-nos mais despertos em nossa breve estadia neste mundo?

O livro realiza uma crítica ferina aos grandes sistemas globalizados. Você considera que a poesia pode ser um território de resistência?
Mais do que resistência, gosto de pensar a poesia como um território de existência. A poesia está no mundo assim como uma Ferrari modelo 2014. Uma Ferrari certamente poderá me levar longe. Mas a poesia me levará muito mais adiante.

Você tem um trabalho que une música e poesia no show "Rebelião na Zona Fantasma". O caminho da sua poesia passa pela música?
Antes de tudo, passa pela oralidade. Gosto de ouvir a música da fala. Quando escrevo, presto muita atenção à música das sílabas se roçando umas nas outras, ao ritmo das frases, às cadências das palavras longas e das palavras breves. Isso me levou ao desejo de oralizar meus poemas com a colaboração dos músicos. Agora em novembro lanço meu segundo CD, "Viralatas de Córdoba", com minha banda Fracasso da Raça, formada por Marcelo Watanabe, Caio Góes e Caio Dohogne. É um trabalho de poeta. Da composição de cada ‘poemúsica’ (como gosto de chamar) até a finalização das gravações, os arranjos, a edição dos backing vocals, sempre com a colaboração dos músicos, todo o trabalho foi muito enriquecedor para mim.

Londrina fez parte de sua formação como poeta?
Sim. Costumo dizer que nasci em Araraquara, interior de São Paulo, e renasci em Londrina. Tenho dupla cidadania. Foi em Londrina que formei as bases do que sou hoje. Os sete anos que vivi na cidade, de 1979 a 1986, foram muito intensos, muito ricos em experiências, em troca de conhecimentos. Foi aí que li grande parte dos autores que formaram meu alicerce, que vi grandes filmes, na sessão da meia-noite do Cine Teatro Ouro Verde, que ouvi os primeiros discos de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Frank Zappa, e que comecei a trabalhar como jornalista profissional. Também fiz grandes amigos, que me ajudaram a crescer, a abrir os olhos. Eles sempre estão comigo, onde quer que eu vá.

Serviço:
"A Voz do Ventríloquo"
Autor – Ademir Assunção
Editora – Edith
Páginas – 120
Quanto – R$ 30

A NOITE DOS EXUS cavalos de exu trancam as ruas, escopetas cospem línguas de fogo, o mar avança sobre as marquises dos bancos, coiotes atacam pastores nos templos, caem as muralhas dos shoppings de Tebas, a brisa esfola o escalpo dos credores, o sol mergulha num ocaso de trevas, pilantras se ferram na noite dos horrores, ferve no inferno o sangue dos larápios, centauros libertam reféns nas UTIs, os gângsteres dos planos de saúde são devorados, os cabos das tevês estão todos cortados (Poema de Ademir Assunção que integra "A Voz do Ventríloquo")
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