Acabou. Chegou ao fim. Terminou. Para conhecer a obra poética de Paulo Leminski (1944 – 1989), o leitor não precisar mais caçar poemas na internet, não precisa mais xerocar os livros das bibliotecas, muito menos vasculhar os sebos em vão. Finalmente essa longa jornada não é mais necessária.
Os versos do poeta paranaense retornam às livrarias no próximo dia 28 com o lançamento de "Toda Poesia", volume que reúne a obra poética completa de Paulo Leminski, desde os primeiros livros editados de maneira alternativa (hoje extremamente raros) e os editados originalmente pela editora Brasiliense esgotados há décadas: "Quarenta Clics em Curitiba" (1976), "Não Fosse Isso e Era Menos, Não Fosse Tanto e Era Quase" (1980), "Caprichos e Relaxos" (1983), "Distraídos Venceremos" (1987), "La Vie em Close" (1991), "Winterverno" (1994) e "O Ex-Estranho" (1996).
Lançado pela Companhia das Letras, "Toda Poesia" coloca um ponto final na falta de acesso à obra de um dos principais poetas da literatura brasileira. Novas gerações podem agora conhecer a poesia de Leminski e realizar uma leitura mais abrangente de sua produção.
Para baratear o preço do livro, a editora optou por não colocar um poema por página como nas edições originais. Optou por uma diagramação corrida, com vários poemas numa mesma página, dependendo das dimensões dos versos. O resultado elimina o silêncio que faz parte dos próprios poemas, o silêncio do espaço em branco como demarcação de tempo.
As fotos de Jack Pires, presentes em na edição original de "Quarenta Clics em Curitiba" foram suprimidas de "Toda Poesia". Assim como os desenhos de João Virmond, que fazem parte da edição original de "Winterverno", também não estão presentes. Fica claro que o projeto editorial de "Toda Poesia" tem como objetivo evidenciar a obra textual de Leminski, os poemas em si. Mesmo com todos esses acertos e desacertos, a edição é uma conquista para os leitores. Vale assinalar que os poemas visuais e os poemas concretos que fazem parte da edição original de "Caprichos e Relaxos", estão todos preservados na edição enquanto obra completa.
Nascido em Curitiba em 1944, Leminski cresceu entre as correntes do concretismo e da poesia marginal. Traçando seu próprio caminho criou uma estética própria, um estilo que influenciaria profundamente as gerações de poetas subsequentes. Uma poesia totalmente soldada à vida, um exercício de potência para com as palavras.
Na década de 1980, de poeta provinciano, Paulo Leminski se transformaria em poeta pop. Teve o importante papel de levar a poesia aos jovens, de forma aberta e franca. Restaurou o sabor da poesia como um componente da própria vida como nenhum outro poeta de sua geração. Em 1989, debilitado pelo excesso de álcool, faleceu deixando um vácuo nesse processo todo. E, como uma espécie de encanto, ao longo dos anos, continua sendo redescoberto por novas e mais novas gerações de leitores. "Toda Poesia" é uma dádiva nesse sentido. Todo Leminski num só volume ao alcance das mãos.

Serviço:
"Toda Poesia"
Autor – Paulo Leminski
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 424
Quanto – R$ 46,00


Fragmentos:


a palmeira estremece
palmas para ela
que ela merece

("Caprichos e Relaxos", 1983)


um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra

(La Vie en Close, 1991)



ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa

("Distraídos Venceremos", 1987)



existe um planeta
perdido numa dobra
do sistema solar
aí é fácil confundir
sorrir com chorar
difícil é distinguir
esse planeta de sonhar

("Caprichos e Relaxos", 1983)


acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo

(La Vie en Close, 1991)



tudo claro
ainda não era o dia
era apenas o raio

("Distraídos Venceremos", 1987)

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