Os fãs da literatura de Charles Bukowski podem encher seus copos e comemorar. Dois dos principais romances do escritor norte-americano, ''Mulheres'' e ''Cartas na Rua'', voltam às livrarias após permanecerem quase 30 anos restritos aos corredores dos sebos.
''Cartas na Rua'', publicado originalmente pela editora Brasiliense em 1983, foi a primeira obra de Bukowski publicada no Brasil. ''Mulheres'', também publicado pela Brasiliense em 1984, veio na sequência. Não seria exagero dizer que, na época, esses dois livros influenciaram toda uma nova geração de jovens leitores e escritores. Uma legião de autores bukowsnianos surgiu dos subterrâneos e invadiu bares e festas.
Na pele do personagem alcoólatra Henry Chinaski, a literatura de Charles Bukowski (1920 - 1994) deu um caráter sarcástico para a ideia de odisseia e epopeia urbana contemporânea. Deu ao fracasso um lugar acima das estrelas. Substituiu a revolta social pela rebeldia individual. Tudo através de uma autoironia completamente despudorada. Criou um estilo único, copiado por meio mundo.
Henry Chinaski é o protagonista narrador dos quatro melhores romances de Bukowski: ''Cartas na Rua'' (1971), ''Factótum'' (1975), ''Mulheres'' (1978) e ''Misto-Quente'' (1982). Cada um deles compreende um recorte de uma das fases da vida do personagem, da infância à velhice.
''Cartas na Rua'', relançado agora pela editora LP&M em formato de bolso, traz as desventuras de Chinaski durante os 14 anos em que trabalhou nos correios como carteiro enquanto tentava se tornar um escritor nas horas vagas. Trata-se do primeiro romance escrito por Bukowski e o mais sóbrio de todos. Tanto pela abordagem quanto pela quantidade de álcool espalhada pelas páginas. A nova edição traz também uma nova tradução realizada por Pedro Gonzaga.
''Mulheres'', igualmente relançado pela LP&M, traz as desventuras de Chinaski próximo da velhice aproveitando os primeiro louros da fama como escritor. É o romance menos sóbrio escrito por Bukowski. E também o mais engraçado. Retrata o período em que o personagem, após ficar quatro anos sem conseguir tocar um dedo numa mulher, de uma hora para outra começa a ver a chuva despencar sobre sua horta.
Tentando correr atrás do prejuízo e não perder uma única possibilidade de conquista, passa a dormir com todas as mulheres que aparecem pela frente. Passa a trocar de casos como se trocasse de roupa e despedaçar corações. Entra nas maiores confusões sentimentais e etílicas. Onde coloca a mão arruína alguma coisa em nome de seu prazer individual. Mesmo assim, segue em frente, como um canalha exemplar.
No final da narrativa o canalha chega ao limite e começa a pensar em regeneração. A partir da máxima de que ''se um homem vive de mulher em mulher é porque nenhuma delas presta'', pensa em ficar com apenas uma e levar um vida pacata. Claro que tudo no melhor estilo autoirônico e debochado do autor. Nessa nova edição de ''Mulheres'' é preservada a divertida tradução original do escritor Reinaldo Moraes (autor de ''Tanto Faz'' e ''Pornopopeia'') realizada para a primeira edição de 1984.
A LP&M, fechando o ciclo de romances de Bukowski protagonizados por Henry Chinaski, lançou ''Misto-Quente'' em 2005 e ''Factótum'' em 2006. Em ''Misto-Quente'' o autor narra a infância e a adolescência do personagem, uma verdadeira maratona em direção ao entendimento de como sobreviver num mundo cruel, frio e calculista. No livro está toda a gênese da postura de Chinaski adotada ao longo da vida e de suas escolhas. Claramente o relato mais sofrido de suas desventuras.
''Factótum'' traz o período em que Chinaski, na juventude, é expulso de casa pelo pai e começa a vagar pela cidade de trabalho em trabalho. Acalentado pelo desejo de se tornar escritor, consegue permanecer pouco tempo nos empregos mais improváveis. A fome e o desejo de fazer aquilo que acredita dão origem a situações irônicas e melancólicas ao mesmo tempo. Trata-se de um romance visivelmente inspirado na obra de seu maior ídolo, o escritor John Fante (1909 - 1983).
Uma das principais características dos romances de Charles Bukowski reside no teor autobiográfico de suas histórias. Ele próprio declarava que Henry Chinaski era seu mais fiel alter-ego. Parece evidente considerar a melhor biografia do escritor esses quatro romances, ''Cartas na Rua'', ''Factótum'', ''Mulheres'' (1978) e ''Misto-Quente''. Mas melhor não esquecer que Bukowski era um eloquente e profícuo mentiroso. Um pícaro exemplar. O fracassado mais famoso do mundo.

Serviço:
- Mulheres
Autor - Charles Bukowski
Editora - LP&M
Tradução - Reinaldo Moraes
Páginas - 320
Quanto - R$ 20

- Cartas na Rua
Autor - Charles Bukowski
Editora - LP&M
Tradução - Pedro Gonzaga
Páginas - 192
Quanto - R$ 18

Que espécie de merda era eu? Um sujeito capaz de armar jogadas bem maléficas e alucinadas. E qual a razão? Será que eu estava tentando me vingar de alguma coisa? Até quando eu ia ficar dizendo que era apenas uma pesquisa, um simples estudo sobre as mulheres? Eu estava era deixando as coisas aconteceram sem me preocupar muito com elas. Eu não tinha nenhuma consideração por nada além do meu prazerzinho barato e egoísta. Eu parecia um ginasiano mimado. Eu era pior que uma puta; uma puta só toma seu dinheiro; nada mais. Eu bagunçava vida e almas como se fossem brinquedos. Como é que eu ainda me considerava um homem. Eu era feito de quê, afinal? Eu era um marquês de Sade pangaré. Qualquer assassino era mais sincero e honesto que eu. Ou um estuprador. Não queria botar minha alma em jogo, não queria vê-la exposta a deboches, sacanagens. Sabia muito bem disso. Eu não prestava, essa era a verdade. Não prestava. O pior é que eu passava pelo contrário do que era: um bom sujeito.
(Fragmento de ‘‘Mulheres’’ de Charles Bukowski)

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