LEITURA - A visualidade da escrita
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Quem percorre os corredores da 32ª Bienal de São Paulo, que se encerra no próximo dia 10 de dezembro, encontra uma obra de Wlademir Dias-Pino intitulada "Enciclopédia Visual Brasileira". Trata-se de um inventário de imagens manipuladas reunidas em 1001 volumes. Iniciada em 1970, a obra está em construção até os dias de hoje e só será considerada concluída com o falecimento de seu autor.
"Enciclopédia Visual Brasileira" oferece uma ideia da produção do poeta carioca Wlademir Dias-Pino que, próximo de completar 90 anos de idade, esteve em Londrina participando do Londrix 2016 Festival Literário de Londrina.
Um dos expoentes da vanguarda da poesia que floresceu no país na década de 1950 com a poesia concreta, fez da semiótica a matéria-prima de suas criações. Chegou a participar, ao lado de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, da 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta de 1956, mas se distanciou no movimento para seguir o caminho da visualidade da escrita, utilizando a semiótica como referência básica.

Na década de 1960 criou dois conceitos que ofereceram novas possibilidades para a poesia brasileira: o poema-processo e o livro-poema. Dias-Pino defende o poema como processo, não como obra. Tanto o poeta quanto o leitor participam da construção do poema que não se encerra com sua impressão no papel. Sua materialidade segue em frente enquanto ideia. O livro-poema carrega mais radicalidade: só existe no espaço do livro para qual ele foi pensado. A materialidade do espaço se incorpora ao poema e poema se incorpora na materialidade do espaço.
Para Dias-Pino, a inspiração é uma grande bobagem: "Todo meu trabalho está na materialidade das coisas, inclusive na materialidade da palavra e das imagens". Para ele, a poesia deve partir da razão, não da intuição ou das emoções. O fato de incorporar em seus poemas a matemática e a cartografia acentua o caminho da lógica.
Wlademir Dias-Pino faz uma incisiva distinção entre poema e poesia. Para ele, as duas coisas seriam completamente diferentes. O senso comum seria o responsável por colocar poema e poesia num mesmo pacote de sinônimo. Em suas palavras, a distinção é clara: "o poema pode ser rasgado, a poesia não".


