Leitura - A vida em fúria
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de setembro de 2005
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Escrever é um ofício diabólico. Pelo menos escrever do modo que me interessava. É preciso puxar para fora a raiva e a loucura, mas de um modo natural, que não pareça literatura. Eu queria conjurar o demônio e escrever sobre tudo o que as pessoas escondem. Todos querem ser agradáveis, cultos e precavidamente sensatos. Isso não me interessava.
Essas palavras estão na boca do protagonista de O Ninho da Serpente, novo romance do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez. Mas, na realidade, nada mais é do que a representação do próprio Gutiérrez, o desenho de sua proposta literária.
Lançado pela Companhia das Letras, O Ninho da Serpente narra a história de Pedro, um garoto de 15 anos que está fadado a trombar de frente com o mundo. Um jovem tentando sobreviver da maneira mais livre possível num ambiente repleto de arestas e desprovido de perspectivas.
Pedro vive na cidade portuária de Matanzas nos emblemáticos primeiros anos da revolução cubana, ocorrida em 1959. Trabalha empurrando um carrinho de sorvete pelas ruas da cidade. Após a falência da fábrica de sorvete, passa a viver de bicos, enquanto espera ser convocado para o serviço militar obrigatório.
Com aspirações literárias, Pedro conhece a força que os livros guardam ao mesmo tempo em que descobre o sexo. O início de sua vida sexual e o começo de sua aventura pela literatura ocorrem simultaneamente.
O encontro com o sexo e com a literatura parece representar algum tipo de alento, a fúria do corpo ao lado a fúria da mente. Um tipo de encontro que, com o tempo, assume a forma de solidão irremediável. O Ninho da Serpente apresenta a trajetória de um personagem tentando buscar, em vão, seu lugar no mundo. Um lugar que não existe, pois seu destino sempre será regido por uma existência deslocada.
Como em outras obras de Juan Gutiérrez, o protagonista é jogado na miséria da realidade logo após o nascimento. Nasce e, logo em seguida, é lançado no presídio do universo adulto. Não passa pela infância, não atravessa a juventude, simplesmente precisa sobreviver com as mesmas armas dos adultos.
Juan Gutiérrez trabalha com a idéia de que, num processo de coletividade autoritária, representado pela construção de uma nova sociedade após a revolução cubana, a individualidade torna-se o verdadeiro impulso revolucionário. Essa idéia está sutilmente instalada na maioria de sua ficção. Diante de uma imposição social de coletividade, a individualidade se transforma numa válvula de escape, uma das únicas alternativas de liberdade.
Em O Ninho da Serpente, a energia sexual é propositalmente exacerbada. A sexualidade é tratada sem disfarces, como aquilo que é em princípio: um instinto animal que, invariavelmente, não consegue ser refreado pela ação civilizatória ou por princípios morais. O erotismo é encarado como um elemento do cotidiano, uma possibilidade de prazer que é raramente encontrada na realidade da sobrevivência no interior da pobreza.
Atravessando a fúria da literatura e do sexo, Pedro acaba percebendo que não possui muitas escolhas. Entre o desalento e o insolúvel descontentamento, seu destino será não parar em nenhum lugar, perambular pela vida como se percorresse uma estrada de horror. O horror da realidade que segue em direção à literatura.


