Velhice e solidão. Duas coisas que necessariamente não caminham de mãos dadas, mas parece existir um ímã que as aproxima. Onde uma deita para dormir, a outra puxa o cobertor.
Em seu novo livro de contos, "Jeito de Matar Lagartas", o escritor sergipano Antonio Carlos Viana revela as maneiras com que esse ímã exerce o magnetismo entre a velhice e as formas de solidão. Apesar da aspereza do assunto, o autor trabalha com um sóbrio humor nas entrelinhas.
Viana não é o típico escritor profícuo que publica um livro por ano. Sempre fiel ao gênero conto, ao longo de 40 anos dedicados à literatura publicou apenas cinco livros. Mesmo sem uma vasta produção, é um dos grandes contistas da literatura brasileira contemporânea.
O escritor leva a sério a essência do gênero: narrativa curta com final surpreendente. Uma das principais características de sua escrita está na prosa enxuta e sem sentimentalismo. Não há gordura em sua narrativa, apenas pele e osso. Os finais de suas histórias sempre carregam algo surpreendente, revelador, as últimas linhas ampliam os sentidos ou conferem novos sentidos.
Os 28 contos de "Jeito de Matar Lagartas" atravessam temas como morte, velhice, solidão, sexo, desejo, temores e incertezas. As personagens femininas, invariavelmente viúvas ou mulheres abandonadas, passeiam por atmosferas que remetem aquelas criadas pelo dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues (1912 – 1980).
As primeiras linhas do conto "Nena de Cabelos Soltos" são claras nesse sentido: "Os filhos estranharam: a mãe de cabelos soltos? Nena os trazia sempre amarrados com qualquer pedaço de fita ou barbante, nunca ligou para eles, muito encaracolados. O que os filhos não sabiam é que no dia anterior, ao passar por uma obra, em homem gritou, ‘Solte os cabelos, gostosa!’. Há quanto tempo ela não ouvia um elogio daqueles? Gostosa? Ela, Nena, gostosa? Só podia ser brincadeira. Nena não pensava em homem desde que fora trocada pela vizinha."
Outro exemplo pode ser encontrado nas primeiras linhas do conto "Madame Viola faz Escova Progressiva": "Madame Viola estava assistindo ao jornal quando viu a notícia de um acidente de carro num córrego da zona Sul. Pela cor e modelo do carro, tudo indicava que era o do seu marido. O motorista estava morto. Madame Viola teve uma atitude que jamais pensaria ter num momento como esse: tinha marcado hora no salão para sua escova progressiva e fez de conta que não tinha visto nada. Desligou a televisão, pegou a bolsa e desceu as escadas com medo de encontrar algum vizinho que tivesse ouvido a notícia. Aí ela teria que voltar pra casa e chorar descabelada, ao pé da letra."
Mas não só a simplicidade da velhice na solidão, ou da solidão na velhice, fundamentam as histórias de "Jeito de Matar Lagartas". Há uma zona intermediária onde as personagens tentam viver na velhice coisas que desejavam terem vivido na juventude. Amores platônicos aparem em primeiro lugar. Nessa zona, a tentativa de reviver algo que não pode mais ser revivido amplia as maldições da velhice e transformam os temores numa cadela azeda.
A inocência e seu carácter trágico, algo sempre discreto na estrutura narrativa, atinge o ápice em algumas histórias do livro. Viana consegue unir inocência e maldade de maneira exemplar. Um ímã também aproxima as duas coisas. Os contos "Cara de Boneca" e "Jeito de Matar Lagartas", que dá título ao volume, são belos modelos de como a perversidade se alimenta da inocência e a inocência seduz a perversidade.
Nascido em Aracaju, em 1946, Antonio Carlos Viana foi professor de literatura ao longo de toda a vida. Possui teses acadêmicas sobre João Cabral de Melo Neto, Nelson Rodrigues e Paul Valery. É autor de cinco volumes de contos: "Brincar de Manja" (Cátedra, 1974), "Em Pleno Castigo" (Hucitec, 1981) "O Meio do Nada" (Cia. Das Letras, 1999) "Aberto Está o Inferno" (2004) e "Cine Privê" (Cia. Das Letras, 2008).

Serviço:
"Jeito de Matar Lagartas"
Autor – Antonio Carlos Viana
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 154
Quanto – R$ 34,90 e R$ 23,90 (e-book)

Fragmento: Aquele território atrás do cemitério parecia uma ilha distante do mundo, onde ninguém nos procuraria. Eu não era de sumir de casa, mas meus colegas diziam que, ao chegar certa idade, não se podia mais ficar preso na saia da mãe nem ter medo do cinturão do pai. Os momentos decisivos de nossa vida ficam marcados na memória, como a posição do sol, da lua, se for o caso, os cheiros que sentimos naquele instante. E eu me lembro de tudo. Era um meio de tarde de junho, um dia depois de São João, as cinzas das fogueiras ainda fumegando, o cheiro bom de pólvora no ar. Eu já sabia o que significava aquele bando de meninos em fila, esperando a vez para se esfregar nas coxas do seu Lilá. O muro do cemitério onde ele se apoiava já tinha até as marcas de suas mãos. Os meninos iam um por um, abaixavam os calções, se esfregavam nele e só. Cada um levava umas folhas de mamoneira para limpar a sujeira que o outro tinha deixado e se esfregava do mesmo jeito, ensebando mais uma vez as coxas de seu Lilá, que não gemia, que não dizia nada. Também era só isso que ele permitia. Um ou outro queria ir mais longe, mas ele não deixava. Via-se que ele tinha alma bondosa, era como se sacrificasse em nome de alguma coisa que serviria mais para nossas vidas que para a dele. ("Cara de Boneca" de Antonio Carlos Viana)
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