Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A vida corre como bolinha de gude
| Foto: Vitor Pedrassoni/Divulgação
Felipe Pauluk: "Escrever é um relacionamento, não é uma carreira solo. Você tem que se adaptar, tem que quebrar rotinas, inventar lazeres"


Para Felipe Pauluk, poeta é aquele sujeito dramático da família. Aquele que poetiza o que está acontecendo no momento, no meio do cotidiano e bem frente de todos.
Curitibano radicado em Londrina, Pauluk vem desenvolvendo uma intensa intervenção literária na cidade. Publicou seu primeiro livro "Meu Tempo de Carne e Osso", em 2011. Em seguida lançou dois romances, "Hit The Road, Jack" (2012) e "Twon" (2015). No início de 2016 foi a vez de "Comida di Butequim".
Trafegando entre várias formas literárias (poesia, conto e romance), Felipe Pauluk encara a poesia como uma maneira de sintetizar grandes coisas. E encara a prosa como um jeito destrinchar pequenos sentimentos. Nos dois casos, o caminho está em dramatizar a vida. E a vida sempre correndo como bolinha de gude em asfalto velho.
O escritor está lançando agora "Tórax de São Sebastião", volume de poemas regidos pela paixão. De maneira livre e humorada, amor e desamor aparecem como a força motriz dos sentimentos humanos nas situações mais cotidianas e inusitadas.
A seguir Felipe Pauluk fala sobre seu novo livro e de sua posição diante da literatura.

A paixão é um elemento marcante nos poemas de "Tórax de São Sebastião". A paixão é a grande força dos sentimentos humanos?
"Sem paixão não se chupa nem um picolé", disse Nelson Rodrigues. A vida é feita disto. a vida é moldada na vontade. Ou você tem vontade de algo ou não. Ou você se apaixona por aquilo ou aquilo não vira poesia. A paixão é uma faca de dois gumes muito bem afiada. Vira alegria, vira tristeza. Vira prosa, vira poesia. Está em todo lugar. Ela é que move tudo.

E o amor é realmente um caos sem dó nem piedade?
O amor é uma biqueira. Você morre de overdose ali mesmo. E se perguntassem para você, diria: "Faria tudo de novo". Eu sofro muito por amor. Não escondo, nunca escondi. Sou um pisciano com doutorado em sentimento, isto faz de mim uma dor ambulante. "Tórax de São Sebastião" é baseado nessas dores, nessa vontade de ser mau e não conseguir. Quem não ama, apenas vira as costas e vai embora. Mas quem ama de verdade, fica ali comprando um pino atrás do outro e morrendo ali mesmo.

Em seus escritos há sempre alguma reviravolta, alguma surpresa que altera os encaminhamentos da vida. Como é isso? Trata-se de realidade ou ficção?
Será que é realidade? Será que é ficção? Eu costumo dizer que não sei também. A verdade é que a literatura está em todo lugar. As reviravoltas acontecem sempre na nossa vida. As pessoas me perguntam: Como acontece tanta coisa com você? Eu respondo: Com você também acontece, a diferença é que eu sei como contar. Não tenho faculdade, sempre fiz tudo na cara e coragem, minha vida sempre teve reviravoltas, então é meio costumeiro apenas esperar o acaso e ele me surpreender.

Seu primeiro livro, "Tempo de Carne e Osso", foi de poesia. Depois vierem dois romances, "Hit The Road, Jack" e "Town". Agora você retorna à poesia com "Tórax de São Sebastião". Como foi esse processo?
Escrever é um relacionamento, não é uma carreira solo. Você tem que se adaptar, tem que quebrar rotinas, inventar lazeres, diremos. Comecei meus escritos na poesia, passei pelo conto e depois fui para os romances. E em todos eu encontrei desgastes. Voltei por acaso para os poemas. Em 2013 inventei o "Comida di Butequim" que é uma página virtual de micropoemas e foi por aí que encontrei caminho dentro da estética do poema novamente. Lirismo nunca me faltou em nenhum momento, só a estética, a escola, que muda.

Como você escolhe aquilo que deve ser virar prosa e o que deve virar poema?
Não tem muita escolha não. Trabalho com fluxo. Muita coisa minha surge de uma única frase que penso, sentando na frente do computador, e deslancho a escrever. Meu romance "Town" começou com um fragmento e virou um romance. A vida de um poeta não tem muita autonomia literária ou criativa, você fica à deriva das ocasiões. De repente vem e você diz: Isso é um poema? É um conto? O que será que é?

Você acredita que as formas breves de escrita estão ganhando espaço entre escritores e leitores?
As redes, a velocidade da informação, a preguiça transfigurada. Todas estas bagulhadas externas têm transformado o escritor contemporâneo. Não há como fugir. Eu sou confesso total em dizer que me adaptei, aprendi a lapidar mais meus textos para que não fiquem maçantes quando alguém entra no meu perfil. É o mundo. é a vida. Dias atrás estava em um bate-papo e um garoto perguntou se o fato de não andarmos mais com uma caderneta e uma caneta, o fato de escrevermos menos no papel e mais direto no notebook, não banalizava a forma de compor, de produzir. Eu devolvi com outra pergunta: Será que Schopenhauer, Kafka, Bukowski, Fante entre outros, nunca desejaram ter uma máquina que você aperta um ‘backspace’ e ele apaga a besteira que escreveu? Cada um lida com o que tem. Todo mundo tem que se adaptar.

Você desenvolve o "Varal de Poesia", um trabalho que surpreende o leitor. Como funciona?
O varal é feito só de micropoemas, nada grande, nada longo. São frases curtas e grossas. Sacadas repentinas e trocadilhos com expressões populares. Começou com a página no facebook e ganhou forma física em Varal. Trabalho com um papel especial, com fonte de máquina de escrever. O mais surpreendente é que as pessoas podem pegar as poesias, levar pra casa. Já fiquei sabendo de poemas meus colados em paredes de quartos do Rio Grande do Sul, Pernambuco e até em Londres. Millôr, Cacaso e Leminski são meus mentores espirituais neste projeto.

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Serviço:
"Tórax de São Sebastião"
Autor – Felipe Pauluk
Editora – Madrepérola
Páginas – 156
Quanto – R$ 25,90


Fragmentos:

O Homem

o homem é uma constante apunhalada pelas costas.
é um pássaro estilingado que, já desfavorecido da
harmonia batedora das asas, declina espantado
sem saber o chão que lhe espera para o esfolo.
é uma linha alva e sem cerol que arrebentada ginga
a pipa ao léu com a batuta de um maestro.
o homem é o engolir do mar,
é a areia ventada e sem paz.
é o leito derramado e ao mesmo tempo o choro.
o homem é prego no pé de si mesmo.
é o punhal e as costas.
o homem.


*

Beagle

me encolhia no colo do teu útero,
tal como aquele cãozinho beagle
que estampa o mês de maio do calendário
pendurado na porta da cozinha.
saudade é uma britadeira que entoa Chet Baker
enquanto cascalha a estrada do meu peito.
os dias são mais longos sem você,
a tua partida foi o grão que fez
alavancar da terra uma solidão-pé-de-feijão,
toca o céu da minha boca.
eu subo como um menino sadio.
eu escalo cada madrugada pra chegar em você.
Ah, o colo do seu útero.



(Poemas que integram "Tórax de São Sebastião", de Felipe Pauluk)

Foto: Vitor Pedrassoni/Divulgação

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