LEITURA - A vida como performance
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de janeiro de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A literatura contemporânea tem apostado todas as fichas na tentativa de captar o mundo atual. Eliminar a linearidade e a homogeneidade narrativa tornou-se quase uma unanimidade. A fragmentação se transformou em altar onde os joelhos se dobram e as orações são depositadas.
O espanhol Agustín Fernández Mallo é um dos escritores que vem apostando tudo nessa tentativa. Para ele, a literatura atual deve ser feita de múltiplas misturas e fragmentária porque a vida contemporânea é completamente formada de misturas e fragmentos. Não haveria mais linearidade nem homogeneidade no dia a dia das pessoas.
A partir desse argumento escreveu a trilogia "Nocilla" que ganhou repercussão na Europa e deu o pontapé inicial para o surgimento de uma nova geração de jovens escritores que passou a ser chamada de "geração nocilla". Alguns consideram a literatura de Agustín Fernández Mallo como pós-moderna, outros simplesmente como samba do crioulo doido. Para se ter uma ideia, o termo "nocilla" provém de uma marca de pasta de chocolate com avelã e de uma música do grupo punk Siniestro Total.
A trilogia é formada pelos romances "Nocilla Dream", publicado no Brasil em 2013 pela editora Companhia das Letras, "Nocilla Experience", que acaba de ser lançado pela mesma editora, e "Nocilla Lab" que dever sair em 2015. A escrita de Agustín Mallo, nos três livros, é constituída de uma rede horizontal em que tanto a literatura quanto as histórias em quadrinhos, o cinema, a poesia, a música pop, teoremas científicos, artigos, recortes de jornal, arte conceitual ou publicidade entram no texto no mesmo nível, sem hierarquias externas. Tudo junto e misturado.
Os três volumes da trilogia são independentes da mesma maneira como os textos dentro de cada volume também são. Os livros podem ser lidos na sequência normal de páginas ou na sequência que o leitor bem entender. O fato de serem formados por textos curtos e independentes favorece a multiplicidade de sequências de leitura. Em "Nocilla Experience" há até uma declarada referência ao método desenvolvido pelo escritor argentino Julio Cortázar (1914 1984) na obra "O Jogo da Amarelinha", de 1963.
"Nocilla Experience" segue o mesmo padrão do volume anterior, "Nocilla Dream". Não há uma história narrada. Há dezenas de fragmentos de histórias totalmente independentes ao lado de teses científicas, depoimentos de artistas pop, fragmento de artigos, repetições de textos, hipóteses estéticas, etc., tudo em ritmo de zapping. Ao leitor cabe tentar ligar, subjetivamente, as pontas do samba do crioulo doido. Ou mesmo encarar tudo como um armário de gavetas numa casa desconhecida.
A parte mais interessante da obra de Agustín Mallo não está em desenvolver uma literatura de zapping com as mais diversas referências, mas em criar histórias de vidas conceituais. A ideia é simples, basta aplicar os princípios da arte conceitual das artes plásticas na construção de uma história e eleger o acaso como elemento primordial. Não tem nada a ver com a construção de uma narrativa enquanto forma, apenas a construção de um conceito, de um conteúdo.
Nada mais do que pessoas que passaram a viver de maneira conceitual e única. Tem o sujeito que pinta mandalas sobre chicletes fossilizados nas calçadas de uma grande cidade. Tem o cara que enterra televisões ligadas. Tem o arquiteto que projeta a Torre Para Suicidas, um edifício que oferece todo tipo de assistência para quem deseja pular do décimo andar. Tem o homem que realiza contrabando de minhocas numa época em que não há mais espécies puras. Um sujeito que desenvolve a teoria da solidão como propriedade. Uma mulher que cria um carro todo feito de madeira e movido à lenha. Um chef que se propõe a cozinhar o horizonte.
São personagens que fazem da vida uma performance solitária e invisível para a sociedade, para o mundo. Figuras que fazem das particularidades o elemento fundamental da sobrevivência mental e psíquica.
Serviço:
"Nocilla Experience"
Autor Agustín Fernández Mallo
Editora Companhia das Letras
Tradução Joana Angélica dAvila Melo
Páginas 248
Quanto R$ 37


