LEITURA - A vida como mineiramente ela é
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Mineiridade é um conceito que sempre esteve presente na obra dos escritores mineiros clássicos. Um conceito que, nos últimos tempos, foi deixado de lado pela nova geração de autores das montanhas de Minas.
Isso não significa que a mineiridade caminha para se tornar um elemento obsoleto dentro da literatura brasileira. Uma prova disso está em ''Poltrona 27'', novo romance do escritor mineiro Carlos Herculano Lopes que chega essa semana nas livrarias lançado pela editora Record.
''Poltrona 27'' traz um baú de histórias reais colhidas pelo autor em suas viagens mensais de ônibus entre Belo Horizonte e a pequena Coluna, típica cidade do interior mineiro situada na região do Vale do Rio Doce. Ao lado dessas histórias, surgem as memórias da família e da infância do autor.
''Poltrona 27'' segue o gênero que passou a ser chamado de autoficção, um cruzamento entre a autobiografia e a ficção. Herculano Lopes afirma que todas as histórias narradas no romance são reais, tanto aquelas que dizem respeito às suas memórias quanto aquelas que ouviu de estranhos em suas viagens de ônibus. E claro que temperadas com o elementos ficcionais necessários.
O personagem principal do livro é um homem chamado Carlos, que reside e trabalha em Belo Horizonte. Uma vez por mês ele embarca num ônibus com destino ao interior, onde possui uma pequena fazenda de gado. Nessas viagens, cruza com todo tipo de gente, geralmente pessoas simples dispostas a contar as grandes tragédias e pequenas alegrias de suas vidas. Quando ninguém senta na poltrona ao lado para contar algo, ele passa a lembrar das histórias da família, ouvidas em algum lugar do passado.
A solução encontrada por Herculano Lopes é exemplar. Em pequenas rodoviárias e viagens de ônibus por pequenas cidades do interior, no popular 'pinga-pinga', as conversas e relatos aparecem naturalmente. As narrativas orais trazem histórias reais impressionantes que facilmente poderiam ser confundidas com ficção.
Misturando esses 'causos', presentes na vida de qualquer brasileiro, com memórias familiares, Herculano Lopes traça um retrato da mineiridade imersa numa nebulosa entre o passado e o presente.
O próprio narrador de ''Poltrona 27'' é um sujeito nascido e criado na zona rural que na adolescência se transfere para a cidade grande. E após a morte do pai, assume a propriedade rural da família. O detalhe é que ele vive, na meia idade, um processo inverso: o retorno ao meio rural. Um território que povoa partes opacas de sua memória.
Nascido na pequena cidade de Coluna, Carlos Herculano Lopes mudou-se com 12 anos para Belo Horizonte para completar os estudos. Atuando como jornalista, escreve há dez anos crônicas mo jornal Estado de Minas. É autor de cinco livros de crônicas, três volumes de contos e quatro romances: ''Dança dos Cabelos'' (Record, 2001), ''Sombras de Julho'' (Estação Liberdade, 1990), ''O Último Conhaque'' (Record, 2003) e ''O Vestido'' (Geração Editorial, 2004). Algumas de suas histórias também foram adaptadas para cinema e televisão. ''Sombras de Julho'' foi transformado em minissérie pela TV Cultura de São Paulo em 1995. ''Um Brilho no Escuro'', conto do volume ''Coração aos Pulos'' foi adaptado para minissérie pela TV Bandeirantes em 2010.
Em ''Poltrona 27'' o autor promove o encontro entre memória pessoal e histórias alheias, entre o universo rural e o urbano, entre o passado e o presente. E executa tal tarefa sem conflitos, na verdade com uma dose de otimismo e serenidade. A vida como mineiramente ela é, sem nenhum ranço regionalista.
Serviço:
Poltrona 27
Autor - Carlos Herculano Lopes
Editora - Record
Posfácio - Silviano Santiago
Páginas - 176
Quanto - R$ 33,90
Fragmento:
Você é de BH?, perguntei, tentando tabular conversa, pois provavelmente iríamos passar horas um ao lado do outro. Sou de Correntes, só estava descansando uns dias na casa da minha irmã, que mora em Calafete, ela ainda falou, e voltou-se para mim, deixando por instantes o celular. Seus olhos eram castanhos e tristes. Que coisa terrível aconteceu lá na sua terra, não foi?, eu disse, me referindo a quatro pessoas que, poucas semanas antes, quando faziam um piquenique, haviam morrido afogadas no Rio Turvo. Falei por falar, porque, naquele momento, não me veio outra coisa à cabeça com a qual pudesse iniciar uma conversa. Então aquela mulher, cujo nome era Nilma, e tinha 44 anos de idade, um a menos do que imaginei, virou-se para mim, abaixou os olhos e contou, como se a si própria: Os mortos eram da minha família. O quê?, perguntei assustado, não acreditando em tamanha coincidência e já arrependido por não ter ficado calado, como devia. Sim, as três meninas eram minhas filhas, e o pai delas, José Henrique, meu marido.
(Fragmento de ''Poltrona 27'', de Carlos Herculano Lopes)


