LEITURA - A viagem de um sol escuro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de abril de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A refeição surge na mesa. Os comensais parecem ter saído dos piores becos e dos mais escuros porões. Pertencem a uma fauna real e ao mesmo tempo fantástica. Uma espécie de delírio líquido escorre sobre tudo e todos. A comida não possui vestimentas, está nua, sem subterfúgios, sem disfarces. A comida se apresenta como ela é: um pré-excremento. Um almoço completamente nu. Uma nudez que só os pirados conseguem ver.
O alimento em questão é "Almoço Nu" ("The Naked Lunch"), obra mais cultuada do escritor norte-americano William S. Burroughs (1914 1997). E é necessário um estômago forte para digerir aquilo que se passa em suas páginas. O próprio autor classificava o livro como "imoral" e "indigesto".
A editora Companhia das Letras está lançando esta semana uma nova edição de "Almoço Nu". Publicado originalmente na França em 1959, o livro era tão estranho que, na época, nenhuma editora dos Estados Unidos assumiu o risco de publicá-lo. Hoje é considerado um dos clássicos da literatura beat ao lado de "On The Road" (1957) de Jack Kerouac e "Howl" (1956) de Allen Ginsberg. A primeira edição brasileira foi publicada pela editora Brasiliense em 1984. A segunda, pelo Circulo do Livro, saiu em 1987. A editora Ediouro publicou a terceira em 2005. A nova edição da Companhia das Letras se baseia nessa última, com tradução do escritor Daniel Pellizzari.
"Almoço Nu" é um romance fragmentário e caótico. Sua leitura pode ser realidade na sequência que os capítulos se apresentam ou na ordem que o leitor bem entender. A linearidade é abolida, tempo e espaço deixam de fazer sentido. Há até uma personagem que deseja comprar o tempo das pessoas para alterar as ordens das coisas.
Trata-se de uma obra sobre o vício em drogas pesadas e sobre a recuperação do viciado. Burroughs, ao longo de 15 anos, foi viciado em ópio, morfina e heroína. Sobre esse período, escreveu: "Esqueci o amor, a agudez de todos os prazeres do corpo, sou um espectro cinza aderido à droga". Após um tratamento médico na Inglaterra, recuperou-se do vício. "Almoço Nu" foi escrito no período de pós-recuperação, a partir de anotações realizadas durante o tempo que permaneceu drogado.
O narrador e protagonista é o junkie William Lee, alter-ego de William Burroughs presente em várias de suas obras. Perambulando por cidades como Marrocos e México, vive em função da próxima dose e em meio a delírios surreais. O sexo ocupa lugar de destaque sempre pautado pelo homossexualismo. Sadismo e masoquismo se espalham em depravações e obscenidades delirantes. Orgias de todas as cores se misturam às críticas severas aos governos e as polícias que procuram destruir os direitos e liberdades individuais.
Ao lado de tudo isso há extraterrestres que se alimentam de carne e esperma humano. Há uma ilha em que a população substitui deputados, senadores e presidente por babuínos. E tudo segue melhor do que antes nas mãos dos macacos. Há um artista de circo que ensina o próprio ânus a falar. Com tamanha autonomia, o ânus aprende muito mais e promove uma revolução, assume o poder sobre o resto do corpo do sujeito e torna-se dono de si mesmo.
William Seward Burroughs, autor de mais de 30 livros, nasceu em 1914 no seio de uma rica família (seu avô foi fundador da maior indústria de máquinas de calcular e da máquina de escrever da época). Formado na Universidade de Harvard, deixou sua homossexualidade no armário ao longo de décadas. Segundo a lenda, teria assumido sua homossexualidade após assassinar a esposa. A história é bizarra. Certo dia, brincando de Guilherme Tell, colocou uma maçã sobre a cabeça da esposa. Tomou distância e, com uma pistola nas mãos, apostou que acertava a maçã no primeiro tiro. Errou o primeiro. Mas acertou o segundo, na testa da esposa. Levado à Justiça, foi absolvido por crime não intencional.
"Almoço Nu" é considerado um dos livros mais loucos do século 20 (o cineasta canadense David Cronenberg transformou a obra em um filme igualmente pirado em 1991). Mais de 50 anos após sua publicação, continua representar uma experiência literária única, personificada por um autor completamente fora dos padrões. Até mesmo quando Burroughs defende a droga como prazer privado e intransferível, um direito do indivíduo, faz uso da razão para colocar os pés no chão, sem romantizar sua opção: "A droga é a fórmula do monopólio e da possessão. O viciado se sustenta enquanto suas pernas drogadas os carregam até o raio luminoso da droga para reincidir. A droga é quantitativa e precisamente mensurável. Quanto mais droga você usa, menos você tem, e quanto mais você tem mais você usa."
A refeição sempre está na mesa. E os comensais escolhem aquilo que desejam desnudar.
Serviço:
"Almoço Nu"
Autor William Burroughs
Editora Companhia das Letras
Tradução Daniel Pellizzari
Páginas 368
Quanto R$ 49,90


