LEITURA - A vanguarda do beco sem saída
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de setembro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Afinal qual o sentido da arte contemporânea?
A pergunta pode até parecer tranquila, mas na verdade é um agitado saco de gatos. O escritor espanhol Enrique Vila-Matas, em seu novo livro "Não Há Lugar Para a Lógica em Kassel", entra nesse saco infestado de garras e dentes. E sai todo arranhado e descabelado, mas com sorriso nos lábios.
Lançado pela editora Cosac Naify, o livro enquanto gênero literário já é uma peça de arte contemporânea. O leitor pode considerar a obra como romance, ensaio, auto-ficção, reportagem, relato de viagem, etc. Ou tudo junto ao mesmo tempo.
O ponto de partida é um fato real. Em 2012, Vila-Matas foi convidado para participar da décima edição da Documenta, um dos mais importantes eventos de arte contemporânea da Europa realizado na cidade alemã de Kassel. Sua missão era permanecer, toda manhã, durante uma semana, sentado na mesa de um restaurante chinês na periferia de Kassel. Na instalação, sua missão era fazer o papel de escritor criando diante do público, além de interagir, se necessário, com os habituais frequentadores do restaurante.
"Não Há Lugar Para a Lógica em Kassel" traz o relato da aventura intelectual de um escritor, considerado o último exemplar da literatura de vanguarda, vivendo dentro de uma instalação da Documenta. Claro que o próprio Enrique Vila-Matas cria um duplo, um escritor personagem para viver como instalação no restaurante chinês.
Autor e personagem percorrem a cidade de Kassel visitando as dezenas de instalações espalhadas pela cidade em museus e praças. Obras estranhas e, ao mesmo tempo, maravilhosas. As reflexões, leituras, ideias, percepções e compreensões passam por amplas e diversas referências literárias uma das principais características da literatura de Vila-Matas. Tudo acompanhado por um sutil humor desconcertante.
O narrador parte para a aventura com a ideia de que a arte contemporânea está próxima do desastre absoluto. Arte para boi dormir. E as vanguardas uma coisa do passado que não possui mais nenhuma razão no tempo atual. Após visitar as obras do Documenta, é invadido pela sensação de que não há mais nada na arte. Após uma série de reflexões, começa a perceber que não é na arte que não existe mais nada, é no mundo que não existe mais nada. A arte seria apenas um espelho desse beco sem saída.
Sua conclusão é de que não se trata do desmoronamento da arte, mas do desmoronamento do mundo. A partir dessa percepção, personagem e autor iniciam um movimento de busca pelo sentido da arte em suas múltiplas implicações. E a constatação está no fato de que a arte deve gerar ideias nas pessoas. Ideias que levem a outras e outras ideias. A grande beleza da arte estaria em sua capacidade de impulsionar novas ideias a partir de estímulos estéticos.
Nas sutilizas do humor e da ironia presente em "Não Há Lugar Para a Lógica em Kassel", Enrique Vila-Matas não perde a oportunidade de eleger o "mcguffin" como o grande elemento das discussões teóricas sobre arte. O "mcguffin" é um recurso popularizado no cinema pelo cineasta inglês Alfred Hitchcock (1899 1960). O recurso consiste em inserir elementos na trama que não possuem nenhuma relevância no conteúdo real da história. Nada mais do que uma distração do ponto principal, um jogo de corpo. A questão se torna simples: a arte contemporânea seria um "mcguffin"?
Enrique Vila-Matas não está empenhado em responder questões, mas levantá-las. E a questão mais luminosa presente em "Não Há Lugar Para a Lógica em Kassel" está em apresentar a alegria como um dos possíveis sentidos da arte contemporânea. Não aquela alegria de corpos pulando, cantando e dançando, mas da alegria intelectual que correspondente ao contentamento mental. O contentamento da geração de novas ideias. A sensação de contentamento em ter uma ideia a partir de outra ideia, a partir de um estímulo estético.
Um dos grandes autores europeus da atualidade, Enrique Vila-Matas faz literatura da própria literatura. Nascido em Barcelona em 1948, possui 10 livros publicado no Brasil, todos pela editora Cosac Naify. Uma das diretrizes de sua obra reside num argumento do filósofo Friedrich Nietzsche (1844 1900). Em poucas palavras: "Apenas como fenômeno estético estão eternamente justificados o mundo e a existência".
Serviço:
"Não Há Lugar Para a Lógica em Kassel"
Autor Enrique Vila-Matas
Editora Cosac Naify
Tradução Antônio Xerxenesky
Páginas 288
Quanto R$ 47


