LEITURA - A um passo da intimidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de setembro de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A figura é de um estranho que, de maneira discreta, chega em determinada família como alguém que não quer nada. Aos poucos, utilizando o método clássico do cara-de-pau, consegue conquistar a confiança de todos os componentes da família.
A figura, que deixa de ser considerado estranho para se tornar íntimo, passa a simbolizar uma revolução nuclear. É capaz de transformar a família de água em vinho, de leite em azeite. Começa a representar o estopim de transformações até então inimagináveis.
A escritora escocesa Ali Smith, em seu romance ''Por Acaso'', faz desta figura um misterioso buraco negro. Alguém com a habilidade de um ímã capaz de atrair todos à sua volta. Uma espécie de ''íntimo estranho bomba'' explodindo a fachada das relações.
Lançado pela Companhia das Letras, ''Por Acaso'' é o primeiro livro de Ali Smith publicado no Brasil, uma autora que nos últimos anos vem concorrendo aos mais importantes prêmios literários de língua inglesa. Sem ganhar nenhum deles, sua escrita possui características das narrativas de extrema atualidade.
Em ''Por Acaso'', a escritora trabalha com exposição dos pensamentos e percepções das personagens de modo incorporado no texto. Não é o narrador que revela a história, mas a voz interior dos próprios personagens que criam essa possibilidade num ritmo próximo dos mecanismos usuais e cotidianos da mente humana.
''Por Acaso'' narra a história de uma família classe média inglesa aparentemente normal que, durante as férias, decide alugar uma casa numa pequena e pacata cidade do interior. Certo dia, surge na residência uma mulher chamada Amber. Levando em conta a maneira como se instala no lugar, cada componente da família acreditar ser conhecida de alguém.
Em poucos dias, Amber, mesmo com uma vida coberta de mistérios, conquista a afeição do pai (Michael), da mãe (Eve) e dos dois filhos adolescentes (Magnus e Astrid). Os elementos mais íntimos de cada um passam a encontrar vazão na presença da estranha. Funcionando como catalisadora, oferece uma dimensão mais palpável para os problemas e dramas que correm do interior de cada um dos familiares.
O que aparece, neste contexto, é exatamente aquilo que permanecia oculto, guardado. Eve, uma escritora especializa em inventar histórias para pessoas que já morreram não consegue mais escrever uma linha. Michael, um professor de literatura afastado da universidade por seduzir uma dúzia de alunas. Magnus, um adolescente expulso da escola por propagar uma mensagem na internet que provocou o suicídio de uma colega de sala. Astrid, uma garota que procura entender sua desvinculação com o mundo através da lente de uma câmara de vídeo portátil.
A situação é narrada pelos quatros integrantes da família de maneira paralela. No entanto, não é através das vozes de cada um que Ali Smith tece a narrativa. Sua opção está em misturar o tempo real e o tempo mental, a percepção emocional e sensação física. O contato dos personagens com a realidade imediata recebe constantes interferências dos processos interiores e vice versa. O texto reúne uma série de diversidade de pontos, tanto de conversão como de diluição, num único bloco narrativo.
Uma das particularidades de ''Por Acaso'' está em não desenhar com precisão a figura da personagem Amber. Seu papel na história está em revelar os detalhes alheios e ocultar detalhes de si própria. O tipo de estranho que assume uma relativa proximidade para assumir a forma de um palito de fósforo. Nesta configuração, acende o pavio e cai foram antes que a bomba entre ritmo de explosão.
Aqueles que permanecem, os quatro membros da família, encontram o que não era para ser encontrado facilmente. O estranho assume a forma de oráculo para os dramas mais interiores, os menos visíveis. Um oráculo que, mesmo que completamente desgovernado, revela que a percepção tanto pode ser um poço como um farol. Neste quadro, o estranho assume a forma amiga. Com instinto de crueldade, mas estranho e íntimo amigo.
Serviço:
- Livro ''Por Acaso'' de Ali Smith. Editora Companhia das Letras, tradução de Beth Vieira, 336 páginas, R$ 49,00.


