''Não há nada a dizer, embora nada tenha sido dito.'' Essa frase pode ser considerada uma espécie de síntese da obra do escritor irlandês Samuel Beckett (1906 - 1989). Pronunciada pelo protagonista do romance ''Malone Morre'', revela um dos desafios enfrentados pela literatura do século 20: a palavra não seria mais suficiente para apagar a desesperança da condição humana.
A valorização cultural e psicológica da palavra atravessou séculos e séculos. Considerada um verdadeiro totem da expressividade da humanidade, simplesmente entrou em colapso nas mãos de Samuel Beckett. Até hoje o escritor é rotulado como o mais desesperançado da história da literatura universal.
Embora seja mais conhecido pela autoria do texto teatral ''Esperando Godot'' (1953), sua obra crucial está concentrada na trilogia em que demonstrou, com todas as letras, o devido esvaziamento das palavras. Trata-se dos romances ''Malone Morre'' (Brasiliense, 1986), ''Molloy'' (Nova Fronteira, 1987) e ''O Inominável'' (Nova Fronteira, 1989).
Fora de catálogo há vários anos, os livros representam três facetas da vida em direção à morte. Um deles, ''Malone Morre'' volta agora às livrarias relançado pela Editora Códex. Com tradução do poeta curitibano Paulo Leminski (1944 - 1989), retrata o desespero de um ser humano diante das ilusões da existência.
Como a maioria dos textos de Becktt, ''Malone Morre'' é pautado por um enredo rarefeito. Descreve os pensamentos de Malone, um velho esperando a morte isolado num quarto fechado. Duas vezes por dia alguém empurra um prato de sopa pela porta.
Malone não sabe se está num asilo, num hospício ou numa prisão. Para ele pouco importa. Deseja apenas permanecer isolado, sem falar com ninguém, sem fazer nada. Está em processo de degradação física esperando que a morte bata na porta.
Para passar o tempo, investiga os poucos objetos do quarto. Para se distrair, procura criar histórias anotadas num bloco de papel. Mas o tédio é tão grande que nem ao mesmo consegue desenvolver ou concluir as histórias que descreve.
Suas histórias são pedaços de narrativas sem grandes preocupações que instauram sucessivos vazios e dúvidas. Deixam indefinido se são realmente histórias criadas na divagação de sua mente, ou descrições oriundas de sua própria memória, fragmentos de lembranças de sua existência.
Uma das características da estrutura do texto de Samuel Beckett é realizar uma afirmação e logo em seguida alterá-la ou negá-la. Na sequência, essa nova afirmação é novamente alterada ou negada. Assim, uma espécie de corredeira de indefinições escorre ao longo das frases.
Beckett nasceu em Dublin, Inrlanda, mas passou grande parte da vida na França. Trabalhou por vários anos como professor e tradutor até tornar-se secretário de James Joyce. Escreveu seus primeiros livros em inglês e, na a partir da década de 40, passou a escrever em francês. ''Malone Morre'', por exemplo, possui duas versões a original em língua francesa e outra convertida pelo escritor para a língua inglesa. Após receber o prêmio Nobel de Literatura de 1969, optou por uma vida isolada, sem sair de casa.
Embora a angústia e a desesperança inundem a obra de Beckett, sua literatura não é marca pela fúria do verbo. A tranquilidade do vazio, da ausência de sentido, permeiam sua narrativa. E essa tranquilidade impulsiona a diluição da palavra até o silêncio. Um silêncio que vincula a morte da literatura à melancólica impotência do homem diante da vida.

Serviço:
- Malone Morre de Samuel Beckett, Editora Códex, traduções e posfácio de Paulo Leminski, 174 páginas, R$ 28,00.

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