LEITURA - A traição do herói
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de março de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Tolstói foi o mais pacifista dos grandes prosadores russos. Também foi aquele que mergulhou fundo nas águas do espiritualismo. Aquele que no final da vida, cansado de atrocidades, abandonou tudo para viver num mosteiro. Paralelamente a tudo isso, curiosamente, foi aquele que mais escreveu sobre a guerra.
Seu clássico romance 'Guerra e Paz' é a maior descrição de batalhas da literatura universal. Na novela 'Khadji-Murát', que a editora Cosac Naify coloca nas livrarias nos próximos dias, Tolstói também fez da guerra seu prato principal. 2010 é o ano do centenário da morte de Liev Tolstói (falecido em 21 de novembro de 1910) e vários lançamentos comemorativos estão programados para o longo do ano.
A obra narra a história de um lendário guerreiro tchetcheno islâmico chamado Khadji-Murát (o prefixo árabe 'khadji' é utilizado para designar aqueles que já realizam a peregrinação aos lugares sagrados de Meca). Um tipo de guerreiro que vive como equilibrista entre duas guerras paralelas: a batalha entre clãs que habitam as montanhas do Cáucaso e a invasão da região pelo exército russo.
Historicamente, a região do Cáucaso sempre foi um secular barril de pólvora. Batalha após batalha. Sangue após sangue. Guerra entre vizinhos, guerra entre famílias, guerra entre cidades, guerra entre etnias, guerra entre nações. O escritor albanês Ismail Kadaré fez de sua obra um mergulho nesse território geográfico onde violência e morte sempre fizeram parte do café da manhã de seus habitantes ao longo de séculos e séculos.
Para sobreviver e proteger seu clã, Murát começa a estabelecer pactos com os mais distintos lados da guerra. Desconfiando de tudo e todos, segue realizando estratégias frias e calculadas e, ao mesmo tempo, estratégias impelidas pela divindade islâmica. Para salvar a família sequestrada pelo clã rival, associa-se aos militares russos que desejam invadir a região para expandir seus territórios.
Nesse quadro, tanto a lealdade como a traição se confundem e assumem múltiplas faces. Murát, o herói traidor, veste a roupa do personagem que é, ao mesmo tempo, herói e bandido, leal e traidor, religioso e sanguinário, assassino e pacifista, santificado e demoníaco. Tudo isso faz com que seja um homem único, admirado tanto pelos aliados como pelos inimigos.
O caminho realizado por Murát se revela um beco sem saída. Ao aliar-se ao inimigo externo para vencer o inimigo interno, passa a ser visto como traidor por todos os rivais. E como já realizou uma traição, pode realizar outras em qualquer situação, a qualquer momento. Assim, o guerreiro torna-se um homem sem lugar, inconfiável, um instrumento a ser utilizado pelos inimigos para interesses próprios e depois descartado. Numa guerra, ninguém entra limpo. Numa guerra todos saem com as mãos sujas.
Em 'Khadji-Murát', Tolstói (1828 - 1910) descreve uma das táticas do exército russo na invasão do Cáucaso, no século 19, e que posteriormente seria adotada pelo exército norte-americano na Guerra do Vietnã, no século 20. Os militares russos seguiam derrubando e queimando florestas e destruindo plantações. Todo para o inimigo não ter o que comer e nem onde se esconder da morte.
Para escrever 'Khadji-Murát', o autor se baseou em fatos reais e em sua própria experiência como soldado. A figura notória de Murát realmente existiu e se espalhou como uma espécie de lenda na época. Quando Tostói entrou para o exército russo, seguindo os passos do irmão mais velho, serviu na invasão da região do Cáucaso entre 1851 e 1854. Depois, já na categoria de suboficial, participou da Guerra da Crimeia entre 1854 e 1856, quando abandonou o exército para se dedicar à literatura.
A novela ficou conhecida no Brasil não pelo título original 'Khadji-Murát', mas pelo nome de 'O Diabo Branco' graças a duas edições, a primeira publicada pela editora Vechi em 1949, a segunda lançada pela editora CBL em 1969.
Todas as recordações sucediam-se velozes em sua imaginação, sem despertar nele nenhum sentimento, quer de comiseração, quer de rancor, nem desejo algum. Tudo isso parecia tão insignificante em comparação com o que já começava ou já havia começado para ele! E, no entanto, o seu corpo continuava a ação encetada. Reunindo as forças derradeiras, ergueu-se sobre a trincheira, atirou de pistola num homem que se aproximava e acertou nele. O homem caiu. Khadji-Murát saiu completamente para fora da vala e, de punhal na mão, caminhou mancando fortemente, ao encontro dos inimigos. Ressoaram alguns tiros, ele cambaleou e caiu. Alguns milicianos soltaram um grito esganiçado de triunfo e atiraram-se na direção do corpo caído. Mas aquilo que parecia um cadáver de repente se mexeu. Em primeiro lugar, ergueu-se a cabeça raspada, descoberta, ensanguentada, em seguida o busto e, finalmente ele se levantou todo, agarrando-se a uma árvore. Mas seu aspecto era tão terrível que os homens que corriam ao seu encontro se detiveram.
(Fragmento de Khadji-Murát de Liev Tostói)
SERVIÇO
■ Khadji-Murát
Autor - Liev Tostói
Editora - Cosac Naify
Tradução e prefácio - Boris Schnaiderman
Quanto - preço não definido (228 págs.)


