A literatura brasileira sempre cultivou a virtude de gerar bons contistas. De anos em anos novos escritores aparecem para revitalizarem o gênero, torná-lo mais sedutor. O paulista João Anzanello Carrascoza é um desses autores que, produzindo literatura sem fazer grandes alardes, merece atenção.
A evidência está em ''O Volume do Silêncio'', coletânea de contos de Carrascoza lançado pela Editora Cosac Naify. Organizado por Nelson de Oliveira, a obra reúne uma seleção de textos presentes nos seis livros publicados pelo autor ao longo da última década.
Nas histórias narradas por Carrascoza há um tipo de ternura desconcertante. Um tipo de ternura que não se apresenta como chuva de pétalas de rosas caindo lentamente do céu afagando as vestimentas dos sentimentos mais meigos e lacrimejados do homem. Um tipo de ternura que se apresenta como aquilo que o homem sente quando pisa em pétalas de rosas com a consciência que está destruindo-as através de uma sensação momentânea. Uma sensação que grava em sua memória a impressão de que o fogo pode significar conforto e dor ao mesmo tempo.
Nos contos de Carrascoza a ternura não realiza um passeio pelo cotidiano. Realiza um passeio pelos detalhes que fazem do cotidiano algo além do que uma sucessão de ações, pensamentos, fatos e sensações. Toda a atenção está voltada para os detalhes, às pequenas coisas, aquelas mais ínfimas que, diante de um olhar consciente, transformam os mínimos detalhes em monumentos engrandecidos. Revela pequenas surpresas que só podem ser tocadas levemente com a ponta dos dedos.
As histórias narradas em ''O Volume do Silêncio'' retratam, invariavelmente, o encontro, ou o desencontro, entre duas pessoas próximas. Sejam irmãos, amados, pais e filhos, amigos, filhos e mães. Mais que encontros, retratam reencontros. No encontro existe apenas o presente. No reencontro existe mais, além do presente existe o passado. No reencontro a experiência do passado e os elementos do presente transitam numa via de mão dupla. Misturando direções, os reencontros, ou uma espécie de ''redesencontros'', oferecem a possibilidade de maior gama de estampas para o tecido narrativo de Carrascoza.
Os contos do escritor sugerem que, nas situações comuns e cotidianas de encontros e desencontros, é possível encontrar um amplo leque de revelações. Algo como colocar uma estrela dentro de uma lata de lixo para que os olhos tenham a chance de enxergar o sentido das coisas ali depositadas. Sem nenhuma pirotecnia, a parte mais instantânea da realidade passa a ser focalizada com os instrumentos da simplicidade e da sutileza.

A seguir João Anzanello Carrascoza fala à Folha sobre sua literatura.

As histórias narradas em ''O Volume do Silêncio'' estão inseridas dentro de círculos íntimos de irmãos, pais, mães, maridos, esposas, amigos, etc. Por que a escolha em retratar esse universo?

Cada escritor tem a sua obsessão. A que me impulsiona a escrever está e sempre esteve ligada ao universo das relações interpessoais. Penso que é por meio de um olhar para elas que a dimensão humana entra nos meus textos.

Esses círculos são apresentados como universos próximos e distantes ao mesmo tempo. Esse enfoque é uma opção deliberada em sua literatura?

A proximidade exagerada impede a visão plena, assim como o distanciamento é tantas vezes um ponto de vista frio, por não atingir o núcleo dos dramas, unicamente apreendidos quando há um efetivo envolvimento. Então, esse ir-e-vir me parece ser a posição mais justa para se penetrar nesses mundos.

Nos contos reunidos em ''O Volume do Silêncio'' não há nenhum retrato da violência urbana nem de obsessões sexuais, temas recorrentes na literatura brasileira mais recente. Você acha que esses temas estão saturados e passaram a dizer pouca coisa?

A violência inaparente, implícita ou oculta pode ser mais letal do que aquela que se manifesta em tiros e gritos. As artimanhas do poder, inclusive do poder exercido por uma pessoa sobre a outra, ganham intensidade no silêncio.

Os contos do livro estão inundados numa ternura sutil e singular, algo raro de ser encontrado na produção dos novos autores. O que levou você escolher essa opção?

Somos o que somos. E escrevemos com o que temos dentro de nós. Diante das dores e da finitude da vida, há os que são motivados a explorar a violência direta em seus textos e os que são instados pela ternura.

Você considera que a ternura é evitada, e até anulada, na literatura e vida atual?

Já se disse que não se faz boa literatura com bons sentimentos. Talvez por isso a ternura não seja um valor presente hoje em outros autores. Contudo, no meu modo de ver, não há como suportar tanta realidade agressiva sem um mínimo de compaixão.


O homem desaba na poltrona, exausto, e estende as pernas, apoiando os pés na banqueta. O menino some pelo quarto do casal e retorna um segundo depois, trazendo os chinelos do pai. Ajoelha a seus pés, descalça-lhe as botinas e as meias, sorvendo sua presença viva, sem se importar com seu cheiro de suor, o que vale é que o pai está ali, tão perto, e ele pode gravitar ao seu redor, planeta, satélite, poeira cósmica. Não que o menino pense assim, vão-lhe no coração outras palavras, que seu vocabulário é miúdo, imenso apenas o que não sabe, e talvez nunca venha saber, mas seu sentimento, ao colocar agora os chinelos nos pés do pai, poderia ser assim traduzido: ele, filho, é um coadjuvante e está feliz por ser. O pai sussurra, ''Obrigado'', e, como estão no escuro e ninguém os vê, acaricia-lhe o cabelo, sem constrangimento, embora sem euforia - tanto tempo não se tocam esses dois. E se para o menino é um prazer esse carinho, a ponto de fazer abrir um sorriso banguela, para o pai é uma conquista, e é bom que aconteça hoje, amanhã espetará os dedos na barba do filho e a conversa dos gestos terá outros matizes.

(Fragmento do conto ''O Menino e o Pião'' que integra o livro ''O Volume do Silêncio'' de João Anzanello Carrascoza)

(Fragmento do conto ''O Vaso Azul'' que integra o livro ''O Volume do Silêncio'' de João Anzanello Carrascoza)


Serviço:- ''O Volume do Silêncio'', de João Anzanello Carrascoza, Editora Cosac Naify, seleção e posfácio de Nelson de Oliveira, 216 páginas, R$ 39,00.

mockup