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Londrina

LEITURA - À sombra do segredo

PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de julho de 2004

Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2
AUTOR autor do artigo

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Alguns segredos permanecem guardados durante dias, outros durante anos. Os mais reveladores permanecem guardados por toda uma vida. São segredos discretamente ocultos por razões que a vontade determina e que as cicatrizes se encarregam de encobrir.
Um segredo desse porte foi guardado pelo escritor paulista Marcos Rey (1925-1999) por toda uma existência. Um segredo que somente agora é revelado com a publicação da biografia de Marcos Rey, ''Maldição e Glória'', escrita pelo jornalista Carlos Maranhão e lançada pela Editora Companhia das Letras.
Edmundo Donato (verdadeiro nome de Marcos Rey) contraiu hanseníase aos 11 anos de idade. Na época a doença era conhecida como lepra, o doente chamado de leproso, ou lazarento. Os órgãos de saúde trabalhavam no sentido de confinar os doentes em asilos, em completo isolamento na intenção de evitar supostos contágios.
A família de Edmundo, consciente da situação, escondeu o fato para que o garoto não fosse trancado num leprosário. Mas, através de uma denúncia de vizinhos, o menino foi detido aos 14 anos pelo departamento de saúde que tinha poderes policiais. Assim, permaneceu preso, confinado em sanatórios de São Paulo, durante toda sua adolescência.
Conseguiu a liberdade somente aos 21 anos, fugindo para o Rio de Janeiro. Mesmo curado, carregando como sequela os dedos das mãos deformados, sofreu todo tipo de preconceito e segregação. Atirando-se de cabeça na literatura, decidiu apagar o passado e começar vida nova sob o nome de Marcos Rey. Ocultou esse passado até mesmo das pessoas mais próximas, mais íntimas. E, ao longo dos anos, se tornaria um dos autores mais lidos da literatura brasileira.
Esse segredo, guardado a sete chaves, é o grande enfoque utilizado por Carlos Maranhão em ''Maldição e Glória''. Optando por uma biografia sucinta e ágil, o autor centra sua atenção na fase inicial da vida de Marcos Rey, deixando de lado muitos outros pontos que poderiam ser explorados.
Um dos pontos não explorados é o fato de Marcos Rey ter escrito os roteiros para a série infantil de televisão ''Sítio do Pica-Pau Amarelo'' no final da década se 70. Experiência que, sem dúvida, o auxiliaria, já na década de 80, a tornar-se um autor de livros infanto-juvenis de extremo sucesso.
Por outro lado, um dos pontos abordados por Carlos Maranhão é que Marcos Rey, na década de 70, escreveu 38 roteiros para filmes de pornochanchadas produzidos na Boca do Lixo, região do centro de São Paulo filmes como ''As Cangaceiras Eróticas'', ''Cada Um Dá o Que Tem'', ''As Secretárias Que Fazem de Tudo'', ''Belas e Corrompidas'' e ''A Noite das Fêmeas''.
O que ''Maldição e Glória'' deixa claro é que Marcos Rey, partindo em busca da libertação de seu passado, fez do trabalho um argumento existencial. Trabalhou em rádio, jornal, publicidade, escreveu contos, novelas, romances, roteiros de cinema, novelas e minisséries de televisão, textos de teatro e livros infanto-juvenis. E aplicou, em sua obra, a idéia de que o escritor, ao criar um texto, deveria transmitir, de uma forma ou outra, sua vivência fazendo uso de uma linguagem clara.
As personagens dos romances do escritor são figuras que povoam a noite dos becos e porões. Boêmios, prostitutas, bêbados, cafetões, malandros e toda fauna que trafega no lado escuro da sociedade. Na noite, eles poderiam trafegar tranquilamente sem serem notados. Na verdade, algo que o próprio Marcos Rey, como pessoa marcada pela discriminação, sempre desejou.
Vale lembrar que os romances de Marcos Rey, publicados originalmente nas décadas de 60 e 70, estão sendo resgatados pela Companhia das Letras. No ano passado foram reeditados ''Memórias de um Gigolô'', ''Ópera de Sabão'' e ''Malditos Paulistas''. Agora é a vez de ''Café na Cama'' chegar nas livrarias.
São obras que, por um lado, foram menosprezadas pela crítica especializada e, por outro, devoradas e apreciadas por milhares de leitores comuns. Acusado pelos acadêmicos de praticar uma escrita fácil, Marcos Rey frisava que apenas desejava contar histórias da maneira mais cotidiana, pautado pela ação e pela oralidade. Objetivo que, sem dúvida, conseguiu realizar com elegância.

Serviço:
- ''Maldição e Glória - A Vida e o Mundo do Escritor Marcos Rey'', de Carlos Maranhão, Editora Companhia das Letras, 240 páginas, R$ R$ 41,00.
- ''Café na Cama'', de Marcos Rey, Editora Companhia das Letras, 550 páginas, R$ 52,00.