LEITURA - A sombra do mal
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de outubro de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Gabrielle era uma criança que, desde a mais tenra infância, foi incentivada a realizar regularmente uma brincadeira estranha. Algo como abrir a gaveta da cômoda do quarto da mãe, apanhar uma pistola e encostar silenciosamente o cano da arma na cabeça da pessoa que estivesse dormindo na cama. Puxar o gatilho, da pistola sem balas, era o ponto alto do jogo.
Gabrielle aprendeu a brincadeira com a tia, irmã de sua mãe. No jogo, a tia deitava na cama e desempenhava o papel de mãe, enquanto a garota desempenhava seu papel. Tratava-se de uma brincadeira secreta, um segredo absoluto entre tia e sobrinha.
Quando completou cinco anos de idade, a tia convidou Grabrielle para mais um jogo secreto com uma pequena diferença. Na brincadeira, a tia seria substituída pela mãe, que dormia profundamente na cama. O que a garota não sabia era que, daquela vez, o jogo teria uma pequena novidade: a arma estava carregada.
A menina, em sua ingenuidade, executou a brincadeira com exatidão. Quando o pai de Grabrielle ouviu o disparo inesperado, correu para o quarto e encontrou a esposa deitada na cama com um buraco na cabeça. Também encontrou a filha com uma arma na mão. Uma linda garotinha com sorriso de criança no meio de uma brincadeira.
Sem entender os acontecimentos, o pai decide poupar a filha dos fatos e assumir a autoria do crime. Para completar, seduzido pela cunhada, casa-se com a tia da garota e dá início a uma nova vida com uma nova família.
Essa breve história criada por Dashiell Hammett (1894 - 1961) é o início do romance do escritor norte-americano, ''Maldição em Família'', publicado originalmente na forma de folhetim em 1928. Representa o início de sua transição do conto, gênero até então praticado pelo escritor, para a prosa de maior fôlego.
''Maldição em Família'' acaba de ganhar mais uma edição, com nova tradução, pelas mãos da Editora Companhia das Letras. As edições anteriores - a de 1970 pela Civilização Brasileira e a de 1987 pela Brasiliense - estavam restritas aos garimpadores de prateleiras de sebos.
A história de Gabrielle é o foco central do romance. Uma jovem viciada em morfina que acredita que uma terrível maldição paira sobre sua cabeça. Uma sombra nebulosa e escura. Isso porque todas as pessoas que vivem ao seu redor, uma ora ou outra, morrem. São assassinadas. Mãe, pai, familiares, namorados, amigos ou qualquer outra pessoa com quem estabelece contato. Para salvar a pele da garota entra em cena Sam Spade, detetive da agência Continental que aparece em várias histórias de Hammett.
''Maldição em Família'' é formado por três partes complementares, estrutura idealizada para sua publicação em capítulos. Assim, logo após o investigador concluir seu trabalho, novos fatos aparecem, exigindo nova investigação. A situação se repete várias vezes ao longo do livro até a conclusão final.
Dashiell Hammett é nome de destaque dentro do gênero policial. Considerado um dos criadores do romance policial moderno, foi responsável por colocar as investigações nas ruas das cidades. Autor de clássicos como ''O Falcão Maltês'' e ''Seara Vermelha'', levou para a ficção elementos da realidade criminal com uma boa dose de verossimilhança. O fato de ter trabalhado como detetive particular numa agência em Baltimore, auxiliou, de maneira decisiva, o desenvolvimento de sua literatura.
Exemplo disso pode ser encontrado sutilmente nas páginas de ''Maldição em Família''. Hammett apresenta no interior da narrativa uma silenciosa batalha entre o investigador de crimes e o escritor de histórias policiais. E não tem nenhum pudor em colocar o detetive como herói e o escritor como vilão. E não faz tudo isso com fatos. Faz com palavras.
Fragmento de Maldição em Família de Dashiell Hammett
Ele não cometeu suicídio falei. Foi assassinado.
Gabrielle deu um grito esganiçado e levantou-se de um pulo da cadeira, apontando um dedo branco, de unha grande, na direção da sra. Leggett.
Foi ela quem matou berrou a garota. Ela disse volte aqui e segurou a porta da cozinha com uma das mão e pegou a faca no escorredor de louça com a outra e, quando ele passou, ela meteu a faca nas costas dele. Eu a vi fazer isso. Ela o matou.
A sra. Leggett ficou de pé. Cambaleou e teria caído se Fitzstephan não a tivesse amparado. A surpresa apagou toda a dor de seu rosto inchado.
O homem embonecado e de cara cinzenta que estava junto à mesa á o dr. Riese, eu soube depois disse, com voz fria e ríspida:
Não há nenhum ferimento de faca. Ele levou um tiro na têmpora, disparado à queima-roupa por essa pistola, inclinada para cima. Um suicídio bem claro eu diria.
Collinson obrigou Gabriella a sentar outras vez, tentou acalmá-la. A moça apertava uma mão contra a outra e gemia.
Discordei da última afirmação do médico e disse isso enquanto minha cabeça andava às voltas com outras coisas.
Assassinato. Ele tinha esse dinheiro no bolso. Ele ia fugir.
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Serviço:
- ''Maldição em Família'', de Dashiell Hammett. Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 258 páginas, R$ 39,00.


