LEITURA - A solidão no amor
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Marcos Losnak<b> Especial para a Folha2 
A imagem mais vendida do amor é aquela que multiplica os laços entre as pessoas, aquela que agrega, que une e aproxima. A imagem menos vendida é a oposta, aquela que não estabelece laços, aquela que isola. A literatura da escritora norte-americana Carson McCullers (1917 - 1967) está fundamentada na segunda imagem, aquela que instaura a solidão no amor.
Suas histórias possuem uma ampla aura de ternura no gesto de focalizar personagens alcoólatras, loucos, deficientes físicos, homossexuais, alienados, negros, viciados, perdidos, miseráveis, enfim, aqueles que vivem sob as nuvens do preconceito e da discriminação. Personagens que vivem estabelecendo relações amorosas conflituosas com pessoas, coisas ou situações. Um tipo de amor que tem sua origem justamente no lugar onde a solidão instaura o germe da revolta. Um tipo de amor que não surge para preencher o vazio da solidão, mas para revelar seu sentido.
A editora Novo Século acaba de colocar nas livrarias A Convidada do Casamento, romance de Carson McCullers escrito em 1946. Trata-se de uma nova edição da publicada originalmente pela Círculo do Livro, em 1988, sob o título A Sócia do Casamento. A obra narra a história de Frankie, uma garota de 12 anos de idade imersa em conflitos internos que envolvem a autoestima e a cruel passagem da infância para a vida adulta. Diante do casamento do irmão mais velho, a menina se vê apaixonada pela união matrimonial e sonha em fazer parte da vida do casal. Não conseguindo perceber o tamanho de sua ingenuidade, é impetuosamente atropelada pelas engrenagens da realidade.
A narrativa de McCullers, centrada nas relações cotidianas determinadas pelas alterações das estações, coloca três mundos díspares num mesmo lugar. Grande parte do livro acontece na mesa de uma cozinha, com Frankie, o primo John, de seis anos idade, e Berenice, a cozinheira negra que já passou por quatro casamentos, conversando sobre os detalhes da vida. Os três imersos em tentativas solitárias de obter calor afetivo.
Carson McCullers nasceu na região mais racista do sul dos Estados Unidos, em 1917. Seu grande sonho era ganhar a vida como pianista. Na juventude se mudou para Nova York na tentativa de apostar tudo na carreira musical. Devido a problemas de saúde, precisou abandonar o piano e entrou de cabeça na literatura. Jurada de morte por membros da Klu Klux Klan, publicou seu primeiro romance, O Coração é um Caçador Solitário em 1940, com apenas 23 anos de idade. Concorrendo como figurões como William Faulkner, Ernest Hemingway e Tennesse Willians, sua obra permaneceu num plano secundário até começar a ser adaptada para o cinema.
A vida de McCullers foi uma coroa de espinhos. Sofreu uma extensa lista de dramas de saúde: febre reumática, ataques cardíacos, pneumonias, câncer, paralisia e outras coisas. Bissexual, viu o marido estourar os próprios miolos. Na última década de existência, viveu com todo o lado esquerdo do corpo paralisado. Para criar seus últimos textos, utilizava um único dedo para datilografar. Deixou apenas cinco obras ficcionais, quatro romances e um volume de contos.
Perto dos contos de A Balada do Café Triste (Editora Globo, 1993) e do romance O Coração é um Caçador Solitário (Companhia das Letras, 2007), outras duas obras de McCullers publicados no Brasil, A Convidada do Casamento pode parecer uma narrativa menos expressiva da autora. Mas carrega uma sutileza que aposta naquilo que acontece na cabeça das pessoas e não naquilo que o mundo deseja que aconteça na cabeça das pessoas. Não está interessada na imagem mais vendida. Seu foco está no oposto, na imagem do amor que está fora dos catálogos e desprovida de entendimento. Tudo caminhando para a cova dos leões.


