O amor pode ser um sentimento belo e nobre, mas não devemos esquecer que muitas vezes ele transforma as pessoas em seres mesquinhos.
Em nome do amor as pessoas são capazes de crueldades inimagináveis. Coisas que pouco têm a ver com beleza ou nobreza. O amor justificaria tudo. O álibi perfeito e indiscutível. O álibi eterno.
Essa reflexão é proposta pelo escritor espanhol Javier Marías em seu novo romance, ''Os Enamoramentos''. O álibi até pode ser eterno, mas o sentimento não. Amantes e amados estariam condenados a serem sumariamente substituídos ao longo do tempo. Mesmo que tudo aponte para a eternidade.
Javier Marías desenha a sepultura do amor eterno. Para isso parte do pensamento antigo aplicado à vida contemporânea. Estabelece a simbiose entre amor e morte. Utiliza como citação três obras de referência literária: ''O Coronel Chabert'', de Honoré de Balzac (1788 - 1850), ''Os Três Mosqueteiros'', de Alexandre Dumas (1802 - 1870), e ''Macbeth'', de William Shakespeare (1564 - 1616).
A partir dessas três obras, Javier Marías explora as íntimas relações entre o amor e a morte. O destaque maior recai sobre ''O Coronel Chabert'' que aparece como livro anexo à edição de ''Os Enamoramentos'', lançada pela editora Companhia das Letras. A novela de Balzac narra a história de um militar que, ferido e inconsciente no campo de batalha, é considerado morto pelo exército.
Salvo por camponeses, sua recuperação se arrasta ao longo dos anos. Quando finalmente recupera a consciência e a saúde, descobre que sua esposa, considerada viúva, se casou novamente. Sua missão torna-se deixar de ser considerado ''morto'', recuperar sua fortuna e resgatar sua esposa.
O problema é que os mortos não devem voltar à vida. Não possuem mais espaço no mundo dos vivos. Estão enterrados. A esposa substituiu seu amor pelo amor de outro homem, constituiu uma nova família, e não tem nenhum interesse em desenterrar o marido morto.
Javier Marías utiliza essa ilustração antiga para narrar, em ''Os Enamoramentos'', a história contemporânea de Maria, uma mulher que almoça todos os dias no mesmo restaurante para admirar um casal que ela considera perfeito. Marido e mulher em estado de graça a caminho da bela e nobre eternidade amorosa.
A tragédia ocorre quando o marido, inesperadamente e sem sentido, é assassinado por um morador de rua. A esposa assiste o amor eterno escorrer pelo ralo. Maria se torna amiga da viúva e amante do melhor amigo do marido, entrando num labirinto de sentimentos que desconhecia.
Por um lado está a substituição, pela esposa, do amor eterno pelo amor circunstancial. Por outro está o projeto de sedução da viúva pelo melhor amigo do falecido. Esse é o jogo traçado pelo olhar de Maria, a narradora, uma mulher solitária com dificuldade de estabelecer vínculos amorosos.
''Os Enamoramentos'' não traz grandes ações. A narrativa de Javier Marías está centrada no pensar sobre as ações, em percorrer os labirintos do pensar. Há um teor ensaístico nas divagações sobre o funcionamento dos sentimentos, principalmente no amor e seus revezes. A própria palavra paixão quase não aprece no romance. A mentalização dos processos é o caminho percorrido. O amor do ponto de vista cerebral, mesmo quando ele se liberte da razão.
Mesmo evidenciando situações onde o sentimento amoroso torna as pessoas mesquinhas - fato geralmente negado por amados e amantes - o fim do amor é o grande tema de ''Os Enamoramentos''. A palavra exata não seria fim, mas substituição. No campo amoroso, tudo pode ser substituído na contemporaneidade. Até a febre e o eterno.
Nascido em Madri em 1951, Javier Marías é autor de 15 romances. Professor ao longo de décadas, lecionou em universidades espanholas, inglesas e norte-americanas. ''Coração Tão Branco'' (1992) foi romance que tornou sua literatura conhecida mundo a fora. A trilogia ''Seu Rosto Amanhã'', escrita entre 2000 a 2009 o levou a quase desistir da literatura por esgotamento. ''Os Enamoramentos'' é seu primeiro livro publicado após essa fase.
Javier Marías traça um painel mental da libertação do amor eterno. Da alforria perante a culpa. E até mesmo da relativização do julgamento dos crimes realizados em nome do amor. Em nome de um processo mental baseado em jogos mentais da satisfação de desejos.
A proposta essencial de ''Os Enamoramentos'' está em anunciar que histórias amorosas não acontecem num passe de mágica, como predestinação do cosmos. Elas acontecem entre as pessoas que estão próximas, geográfica e socialmente. Histórias que dependem de pessoas disponíveis de carne o osso. Não haveria nada de mágico nem de mistério na constituição de um casal. Haveria apenas circunstâncias reais.
Em síntese: as relações amorosas geralmente estariam fundadas basicamente pelo conformismo. A repetição dos dramas amorosos seria a prova dessa hipótese. Um amor substitui outro amor que substitui outro amor que substitui outro amor que aparentemente era insubstituível.
Os mortos devem ser sepultados, devem permanecem mortos. A ressurreição é uma utopia que todos aguardam. Sentados com os olhos colados no horizonte ou erguendo pedra sobre pedra construindo castelos.
O que realmente fica não é o acontecido. É a sensação do acontecido. O amor justificaria tudo. E o álibi, aquele perfeito, estaria deixando de ser eterno.

Aqui se vê claramente que, como o passar do tempo, o que foi deve continuar sendo ou deve continuar tendo sido, como acontece sempre ou quase sempre, assim está concebida a vida, de maneira que o fato nuca possa se desfazer nem o acontecido desacontecer; os mortos devem permanecer em seu lugar e nada deve ser ratificado. Nós nos permitimos a saudade deles porque estamos seguros a seu respeito: perdemos tal pessoa, e como sabemos que não vai aparecer nem reclamar o lugar que deixou vago e que foi rapidamente ocupado, estamos livres para desejar com todas as nossas forças a sua volta. Sentimos a falta dela com a tranquilidade de que jamais vão realizar nossos desejos proclamados e de que não há retorno possível, de que não vai mais intervir em nossa existência nem nos assuntos do mundo, de que não vai mais nos intimidar nem nos cobrir, nem mesmo nos fazer sombra, de que já nunca mais será melhor do que nós. Lamentamos sinceramente sua partida, e é verdade que quando ela se produziu queríamos que houvesse continuado a viver; que fez um vazio espantoso e também um abismo no qual ficamos tentado a despencar atrás deles. Depois passam os dias, os meses, os anos, e nos acomodamos; nos acostumamos com esse vazio e nem sequer especulamos sobre a possibilidade do morto tornar a preenchê-lo, porque os mortos não fazem isso e estamos livre deles, e além do mais esse vazio foi coberto e portanto já não pe o mesmo ou passou a ser fictício.

(Fragmento de ‘‘Os Enamoramentos’’, de Javier Marías)


SERVIÇO
* ‘‘Os Enamoramentos’’
Autor – Javier Marías
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Eduardo Brandão
Páginas – 344
Quanto – R$ 49,50

* ‘‘O Coronel Chabert’’
Autor – Honoré de Balzac
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Eduardo Brandão
Páginas – 88

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