O romancista amazonense Milton Hatoum carrega uma nuvem sobre a cabeça. Não uma nuvem escura e tempestiva, mas a calma nuvem da unanimidade. Suas obras recebem apenas palmas e prêmios. Um dos principais nomes da literatura brasileira, não baseia sua produção na prática de lançar um livro por ano. Em 20 anos dedicados à ficção, publicou apenas quatro livros.
Após os romances ''Relato de um Certo Oriente'' (1989), ''Dois Irmãos'' (2000), ''Cinzas do Norte'' (2005) e ''Órfão do Eldorado'' (2008), Milton Hatoum decidiu revelar uma face de sua produção pouco conhecida: os contos. A editora Companhia das Letras acaba de lançar ''A Cidade Ilhada'', volume que reúne 14 breves narrativas do escritor. Não se trata de contos totalmente inéditos, já que parte deles foi publicada originalmente em jornais, revistas e coletâneas no Brasil. Outra parte saiu em revistas e coletâneas na França, México, Alemanha e Estados Unidos.
A intenção de Hatoum não foi propriamente escrever um livro de contos. Nunca pensou nisso. Simplesmente reuniu num único volume textos escritos esparsamente entre 1992 e 2008. Nas histórias de ''A Cidade Ilhada'' é possível encontrar todas as características literárias que consagraram o autor como romancista.
A região geográfica e cultural da Amazônia, em especial Manaus e seus arredores, presente em todos os romances de Hatoum, também figuram nos contos de ''A Cidade Ilhada''. A grande novidade está justamente nos contos não ambientados na atmosfera tropical às margens do rio Amazonas. São geralmente histórias de brasileiros vivendo a experiência de estrangeiros em outros países e tendo a literatura como cruzamento de culturas.
Entre as novidades e o já conhecido, Milton Hatoum mantém um fio condutor entre os contos: o contato entre o estrangeiro e o nativo, entre o mundo natural e a civilização. Os personagens são geralmente estrangeiros que, pelos motivos mais díspares, caem na região amazônica e experimentam algum tipo de tragédia ou redenção. Bem como amazonenses que caem em outros lugares do mundo e, igualmente, experimentam algum tipo de revelação.
Paixão e desejo estão presentes nos contos como o combustível determinante da existência independe das distinções culturais. Poderiam ser considerados velhas histórias de amor que fatalmente terminam em desilusão acompanhadas de um arsenal de impossibilidades, mas nas mãos do escritor amazonense ganham uma conotação mais abrangente.
Desejo e paixão não necessariamente vinculados ao encontro, ou desencontro, entre dois amantes, mas entre sujeito e objeto. Se o sujeito sempre encarna a figura do humano, o objeto possui a capacidade de fugir completamente ao humano. Ele pode ser qualquer coisa, a literatura, um rio, uma paisagem, uma sensação, um sabor, etc. Até mesmo uma discreta ideia.
Fica evidente que, ao lado dos romances ''Dois Irmão'' e ''Cinzas do Norte'', ''A Cidade Ilhada'' não podem ser considerado a grande produção literária de Hatoum. Como bom autor seletivo, não abriu apenas a gaveta e revelou aquilo que havia dentro. Selecionou o que havia na gaveta especial, não na genérica cesta do lixo. Com essa postura, deve manter sobre sua cabeça a nuvem da unanimidade.

SERVIÇO
- A Cidade Ilhada
Autor - Milton Hatoum
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 128
Quanto - R$ 31

Hoje, depois de relê-lo tantas vezes, soa como um manifesto poético de um narrador-personagem que abandona um país europeu para morar numa região equatorial. Com o passar do tempo, o personagem percebe, apreensivo, que o estigma de ser estrangeiro já é menos visível: algo no seu comportamento ou na sua voz se turvou, perdeu um pouco do relevo original. Nesse momento, as origens do estrangeiro sofrem um abalo. A viagem permite a convivência com o outro, e aí reside a confusão, fusão de origens, perda de alguma coisa, surgimento de outro olhar. Viajar, pergunta o personagem de Delatour, não é entregar-se ao ritual (ainda que simbólico) do canibalismo? Todo viajante, mesmo o mais esclarecido, corre o risco de julgar o outro. Consciente ou não, intencional ou superficial, tal julgamento quase sempre deforma o rosto alheio, e esse rosto deformado espelha os horrores do estrangeiro. Nesse convívio com o estranho, o narrador privilegia o olhar: o desejo de possuir e ser possuído, a entrega e a rejeição, o temor de se perder no outro.
(Fragmento do conto 'A Natureza Ri da Cultura' que integra 'A Cidade Ilhada' de Milton Hatoum)

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