O que passa pela cabeça de um viajante chinês que cai de pára-quedas no Rio de Janeiro num dia de carnaval? Um estrangeiro que não conhece uma palavra em português, que desconhece completamente a cultura do País. Que tipo de entendimento ele tem de tudo aquilo que se passa diante de seus olhos?
Ele pode achar tudo muito estranho e esquisito, mas também pode entender coisas que nem os brasileiros entendem. Olhando de fora, pode enxergar detalhes despercebidos. Desprovido de qualquer informação prévia, pode ver tudo o que se passa com os olhos totalmente livres.
O escritor e ensaísta búlgaro Elias Canetti (1905 - 1994), ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1981, defendia essa idéia. Para ele, o desconhecimento do estrangeiro sobre lugar visitado poderia deixar de ser um obstáculo para se tornar uma possibilidade. Até mesmo colocou em prática a idéia em 1954 quando visitou a lendária cidade de Marrakech, no Marrocos.
Antes de arrumar as malas, Canetti não procurou nenhuma informação sobre a cidade. Não consultou nenhum guia turístico, não tentou aprender uma única palavra da língua do país. Não buscou nenhuma informação sobre os costumes do lugar. Enfim, fez questão de não saber nada.
Em Marrakech, passou uma semana vagando pelas ruas, percorrendo feiras livres, bares, mercados e outros lugares públicos. A partir dessa experiência escreveu ''As Vozes de Marrakech'', publicado originalmente em 1968. O livro é um relato de viagem escrito dentro de uma atmosfera característica das crônicas. Retrata as impressões de Canetti de um lugar e uma cultura até então completamente desconhecida para ele, distante de suas referências.
A obra foi publicada no Brasil em 1987 pela Editora L&PM e rapidamente desapareceu das livrarias. Agora, 20 anos depois, a Editora Cosac Naify está lançando uma nova edição do livro. Trata-se de uma obra completamente despretensiosa diante de outras obras de Elias Canetti como ''Auto-de-Fé'', ''Massa e Poder'', ''Uma Luz em Meu Ouvido'', ''O Jogo dos Olhos'' e ''A Língua Absolvida'', onde a densidade aparece com maior vigor.
Os textos de ''As Vozes de Marrakech'' partem do ponto de vista do viajante observador, não do ponto de vista do viajante integrado. O integrado seria aquele que parte da idéia que deve se envolver com o local de maneira próxima e íntima. Como se desejasse fazer parte do país, ver as coisas da maneira como seus habitantes enxergam. O observador pelo contrário, bebe com os olhos e demais mais sentidos tudo à sua volta, como alguém de fora, com a consciência de que sempre haverá algum tipo de distanciamento.
Com o olhar de estrangeiro, Canetti bebe com sede tudo que aparece a sua frente. Como um estrangeiro com sede admirando um rio, percebe da maneira como os comerciantes vendem seus tecidos no mercado à maneira como um camelo sente o cheiro da morte diante de um açougueiro. Do modo como as pessoas escolhem os pães que levarão para casa ao incompreensível desejo de um velho jumento maltratado.
Entre os textos que merecem destaque de ''As Vozes de Marrakech'' está aquele em que o autor descreve seu encontro com os contadores de histórias populares. Sentados num banquinho no meio de feiras livres, esses narradores encantam dezenas de pessoas com suas histórias orais. Sem entender uma única palavra, Canetti realiza uma comparação entre a intensidade da narrativa oral e a narrativa escrita. Percebe que está diante de escritores que nunca escreveram uma única palavra, autores que não tinham nenhum livro para ser lido. Nada mais que a literatura em estado essencial, em estado puro.

Serviço:
- Livro ''As Vozes de Marrakech'' de Elias Canetti, Editora Cosac Naify, tradução de Samuel Titan Jr., 112 páginas, R$ 39,00.

mockup