LEITURA - A santidade do pecado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Na grande maioria das religiões, o suicídio é um tabu. Um território pantanoso. Muitos acreditam que a vida, sendo uma dádiva concedia por Deus, não pode ser interrompida por aquele que foi agraciado com tal dádiva.
Em algumas correntes do cristianismo, os suicidas não são sepultados como todo e qualquer falecido. Nos cemitérios, são enterrados em lugares segredados, isolados dos demais mortos, numa espécie de castigo.
Em seu primeiro romance, "Nossa Teresa", a poeta pernambucana Micheliny Verunschk avança sobre esse tabu de maneira labiríntica. Ao apresentar a história de uma santa suicida, revira ao avesso o universo contraditório entre a devoção e o poder religioso. Cria uma trama pautada por lacunas e interrupções na narrativa tradicional.
Publicado pela editora Patuá, "Nossa Teresa" ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de melhor romance de 2015 de autor estreante acima de 40 anos. A obra não pode ser descrita como uma extensão da poética de Micheliny Verunschk, mas uma experiência de linguagem com um algum grau de maturidade.
Teresa, habitante de uma pequena cidade, é uma garota pré-adolescente virgem que tem visões de Nossa Senhora Aparecida e experiências místicas com o mundo divino. Para se aproximar mais rápido de Deus, resolve cortar os pulsos e partir para o paraíso em velocidade máxima.
Um belo dia os pais chegam em casa em encontram Teresa caída num mar de sangue. Sem deixar nenhum bilhete suicida, ninguém consegue entender a tragédia. Até o dia em que milagres, dos mais variados possíveis, começam a acontecer atribuídos a Teresa. O pai e a mãe, ateus convictos, entram em profundo silêncio enquanto padres e bispos começam a nadar de braçadas.
Em termos dogmáticos do catolicismo, uma suicida nunca poderia ser canonizada. Em nenhuma hipótese, uma pessoa que escolheu a morte voluntária deveria ser santificada. Mas Teresa consegue. O padre que recebeu sua última confissão, décadas depois, se torna Papa. Em sua autoridade, faz de tudo para canonizar Teresa, a Santa Suicida.
O narrador de "Nossa Teresa" é um velho ranzinza que não está nem um pouco preocupado em apresentar a história de Teresa com clareza. Apresenta fragmentos, episódios isolados, devaneios, digressões, subterfúgios, fatos pingados, suposições e muito mais. Tudo sem nenhuma ordem lógica ou cronológica. Seu papel, totalmente explícito, é irritar o leitor com uma lábia evasiva. Defende possuir o poder da narrativa e fazer dela o que bem entender.
O leitor pode se sentir pentelhado pelo narrador, mas também pode perceber que ele está traçando um labirinto que resume os caminhos da literatura contemporânea. A linearidade está sendo enterrada junto com os santos de um mundo que não mais existe.
Em seu relato, o velho narrador insere histórias paralelas que não fazem parte do núcleo da narrativa, mas integram associações próximas. Associações que poderiam potencializar o sentido, mas que optam pela máxima discrição de conexões. Propostas de associações que apontam para o seletivo buraco negro na memória.
Micheliny Verunschk nasceu em Recife, em 1972, e reside em São Paulo há uma década. É autora de quatro volumes de poesia: "Geografia Íntima do Deserto" (Landy, 2003), "O Observador e o Nada" (Bagaço, 2003), "A Cartografia da Noite" (Lumme, 2010) e "B de Bruxa" (Mariposa, 2014). Com "Nossa Teresa" abre um novo caminho para sua literatura que pode gerar obras interessantes pela frente.
A personagem Teresa, a eterna Santa Suicida, é uma figura que se abstém de seguir dogmas religiosos. A partir de sua experiência espiritual individual, realiza aquilo que é proibido pelo tabu. E mesmo assim, é convertida em milagre divino. Sua figura inverte padrões, ganha outra dimensão e se distancia da origem canônica. Seu pecado se converte em santidade.
Serviço:
"Nossa Teresa Vida e Morte de uma Santa Suicida"
Autor Micheliny Verunschk
Editora Patuá
Páginas 192
Quanto R$ 30


