Na grande maioria das religiões, o suicídio é um tabu. Um território pantanoso. Muitos acreditam que a vida, sendo uma dádiva concedia por Deus, não pode ser interrompida por aquele que foi agraciado com tal dádiva.
Em algumas correntes do cristianismo, os suicidas não são sepultados como todo e qualquer falecido. Nos cemitérios, são enterrados em lugares segredados, isolados dos demais mortos, numa espécie de castigo.
Em seu primeiro romance, "Nossa Teresa", a poeta pernambucana Micheliny Verunschk avança sobre esse tabu de maneira labiríntica. Ao apresentar a história de uma santa suicida, revira ao avesso o universo contraditório entre a devoção e o poder religioso. Cria uma trama pautada por lacunas e interrupções na narrativa tradicional.
Publicado pela editora Patuá, "Nossa Teresa" ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de melhor romance de 2015 de autor estreante acima de 40 anos. A obra não pode ser descrita como uma extensão da poética de Micheliny Verunschk, mas uma experiência de linguagem com um algum grau de maturidade.
Teresa, habitante de uma pequena cidade, é uma garota pré-adolescente virgem que tem visões de Nossa Senhora Aparecida e experiências místicas com o mundo divino. Para se aproximar mais rápido de Deus, resolve cortar os pulsos e partir para o paraíso em velocidade máxima.
Um belo dia os pais chegam em casa em encontram Teresa caída num mar de sangue. Sem deixar nenhum bilhete suicida, ninguém consegue entender a tragédia. Até o dia em que milagres, dos mais variados possíveis, começam a acontecer atribuídos a Teresa. O pai e a mãe, ateus convictos, entram em profundo silêncio enquanto padres e bispos começam a nadar de braçadas.
Em termos dogmáticos do catolicismo, uma suicida nunca poderia ser canonizada. Em nenhuma hipótese, uma pessoa que escolheu a morte voluntária deveria ser santificada. Mas Teresa consegue. O padre que recebeu sua última confissão, décadas depois, se torna Papa. Em sua autoridade, faz de tudo para canonizar Teresa, a Santa Suicida.
O narrador de "Nossa Teresa" é um velho ranzinza que não está nem um pouco preocupado em apresentar a história de Teresa com clareza. Apresenta fragmentos, episódios isolados, devaneios, digressões, subterfúgios, fatos pingados, suposições e muito mais. Tudo sem nenhuma ordem lógica ou cronológica. Seu papel, totalmente explícito, é irritar o leitor com uma lábia evasiva. Defende possuir o poder da narrativa e fazer dela o que bem entender.
O leitor pode se sentir pentelhado pelo narrador, mas também pode perceber que ele está traçando um labirinto que resume os caminhos da literatura contemporânea. A linearidade está sendo enterrada junto com os santos de um mundo que não mais existe.
Em seu relato, o velho narrador insere histórias paralelas que não fazem parte do núcleo da narrativa, mas integram associações próximas. Associações que poderiam potencializar o sentido, mas que optam pela máxima discrição de conexões. Propostas de associações que apontam para o seletivo buraco negro na memória.
Micheliny Verunschk nasceu em Recife, em 1972, e reside em São Paulo há uma década. É autora de quatro volumes de poesia: "Geografia Íntima do Deserto" (Landy, 2003), "O Observador e o Nada" (Bagaço, 2003), "A Cartografia da Noite" (Lumme, 2010) e "B de Bruxa" (Mariposa, 2014). Com "Nossa Teresa" abre um novo caminho para sua literatura que pode gerar obras interessantes pela frente.
A personagem Teresa, a eterna Santa Suicida, é uma figura que se abstém de seguir dogmas religiosos. A partir de sua experiência espiritual individual, realiza aquilo que é proibido pelo tabu. E mesmo assim, é convertida em milagre divino. Sua figura inverte padrões, ganha outra dimensão e se distancia da origem canônica. Seu pecado se converte em santidade.

Serviço:
"Nossa Teresa – Vida e Morte de uma Santa Suicida"
Autor – Micheliny Verunschk
Editora – Patuá
Páginas – 192
Quanto – R$ 30

Nunca, em outros tempos, se alardeara com tanta veemência a existência de santos suicidas, pois pela tradição daqueles que costumam ou julgam saber das ordens e mandos de Deus, ou como quer que ele seja nomeado pelas várias religiões que infestam o mundo como uma praga do próprio Criador, o jardim celestial fecha terminantemente seus portões com travas, ferrolhos, cadeados, grossas correntes a todo homem ou mulher que, em gesto de insana profanação, atenta contra o que é de menos seu, contra o que lhes é dado apenas por empréstimo, o bem mais precioso, a vida. Nenhuma misericórdia! Gritam os pregoeiros da palavra e vontade divinas. E quando isto proclamam, saiba-se que nenhuma piedade concederão aos que injuriam a carne com a morte escolhida, prerrogativa do mesmo Deus, senhor que a uns acolhe e a outros não e que, cioso de suas tarefas, quer sempre definir a hora, o local e os meios, desconsiderando, é claro, essa tolice com que tantos se enganam, essa bobagem de livre-arbítrio que só tem a serventia de enganar a humanidade a propósito da falta de pulso sobre seu próprio destino. Pensam os arautos do Senhor que num mundo em que reinasse o livre-arbítrio de fato, Deus não teria mais qualquer utilidade. Num mundo em que homens e mulheres pudessem, sem culpas ou danações, se apoderar de suas vidas e mortes, Deus seria condenado ao vazio, como um velho que esclerosa e vai sendo despido, graciosamente, e aos poucos, do respeito grave com que era considerado quando em uso da razão. (Fragmento de "Nossa Teresa", de Micheliny Verunschk)
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