LEITURA - A saliva das lembranças
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segunda-feira, 26 de março de 2012
Marcos Losnak <br> <br> Especial para a Folha2 
O escritor italiano Antonio Tabucchi passou parte dos últimos anos acamado. Várias internações hospitalares, cancelamento de palestras, adiamento de lançamento de livros. Morreu no último domingo, dia 25, em Lisboa, vítima de câncer aos 69 anos.
Dois países declararam luto por seu falecimento, Itália e Portugal. O fato pode parecer curioso, mas a história de vida de Antonio Tabucchi elucida a situação. Nascido em 1943 na cidade de Vecchiano (província de Pisa, Itália), na década de 60 entrou em contato com a poesia do português Fernando Pessoa (1888 - 1935) e imediatamente se apaixonou por sua literatura.
Professor universitário, Tabucchi se transformou num dos grandes estudiosos europeus da poesia de Pessoa. Tornou-se o grande responsável pela divulgação da obra de Pessoa em seu país traduzindo para o italiano cinco volumes com versos do poeta português.
Sua admiração por Fernando Pessoa passou rapidamente para uma paixão por Portugal. Nas últimas décadas viveu entre seu país natal e sua paixão pela aura portuguesa. Em 2004 tornou-se cidadão português e, segundo seu desejo, será sepultado em solo lusitano.
Um dos grandes nomes da literatura italiana contemporânea, Antonio Tabucchi, apesar de sua aproximação acadêmica com a poesia, deixou 20 obras em prosa publicadas. Romances e volumes de contos traduzidos para aproximadamente 35 idiomas mundo afora. No Brasil foram publicados ''Anjo Negro'' (Rocco, 1994), ''Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa'' (Rocco, 1996), ''Sonhos dos Sonhos'' (Rocco, 1996), ''Mulher de Porto Pim'' (Difel, 1997), ''A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro'' (Rocco, 1998) e ''Está Ficando Tarde Demais'' (Rocco, 2001), ''Réquiem'' (Rocco, 2001), ''Os Voláteis do Beato Angélico'' (Rocco, 2003) e ''Tristaro Morre'' (Rocco, 2007) entre outros.
Seu último livro, o volume de contos ''O Tempo Envelhece Depressa'', foi publicado no Brasil em 2009 pela editora Cosac Naify. Nele, Tabucchi, numa espécie de testamento ficcional, assinala que as lembranças do passado podem ter mais sentido do que as aspirações do futuro.
São histórias onde as lembranças aparecem como criações de realidades mais significativas do que a própria realidade dos fatos. Histórias onde o tempo atua como um removedor de neblina, um instaurador de clareza ao longo de cada passo.
Nos contos, a história em si não é o componente principal, mas as representações que ela é capaz de revelar. Como se a névoa presente na realidade deixasse espaço para um horizonte mais límpido. E junto com a limpidez, aparece a melancolia. Aquele tipo de melancolia capaz de fazer do passado um alimento de primeira necessidade na saliva das lembranças.
Alguns contos sugerem que a leveza pode ser um dos componentes da lembrança, já que é de sua natureza ser construída de elementos rarefeitos, que escorrem pelos vãos dos dedos. Para o Tabucchi, a memória é uma construção ficcional. As pessoas, nas mais variadas situações, recorrem às lembranças para fazer do presente um território habitável.
Apesar de ter sido professor de literatura portuguesa ao longo de década, Antonio Tabucchi não teve grandes intimidades com a literatura brasileira. Traduziu apenas uma coletânea de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Em 2010, por motivos de saúde, cancelou sua vinda ao Brasil para participar da Flip - Festa Literária de Paraty. Em 2011, após confirmar sua presença no mesmo evento, novamente cancelou sua visita ao país alegando discordar da decisão do governo brasileiro em não extraditar o militante italiano Cesare Battisti, num assunto inundado de polêmica.


