Quando Gabriel García Márquez subiu ao palco para abrir o I Congresso Internacional da Língua Espanhola de 1997, a platéia aguardava um discurso em devoção à língua. Homenageado pela Unesco, que organizava o evento, o escritor optou por deixar os participante de 'cabelo em pé'.
Em seu discurso, Garcia Márques defendeu nada mais nada menos do que extinção da gramática e da ortografia. Para espanto de uma plateia de catedráticos, linguistas, filólogos, gramáticos e doutores, ele propôs a aposentadoria da ortografia, que ele nomeou como terror da humanidade: ''Simplifiquemos a gramática antes que a gramática acabe nos simplificando''.
Seu argumento era de que o poder da palavra no mundo atual não mais correspondia ao poder que a palavra tinha quando os padrões das línguas escritas foram estruturados e sistematizados: ''A humanidade entrará no terceiro milênio sob o império das palavras. Não é verdade que as imagens estejam substituindo as palavras, nem que as palavras podem ser extintas. Ao contrário, as imagens estão potencializando as palavras. Nunca houve no mundo tantas palavras com tanto alcance, autoridade e vida própria como na imensa Babel da vida atual. Palavras inventadas, maltratadas ou sacralizadas pela imprensa, pelos livros descartáveis, pelos cartazes de publicidade; faladas e cantadas no rádio, na televisão, no cinema, no telefone, nos auto-falantes públicos; gritadas nas inscrições dos muros das ruas ou sussurradas ao pé do ouvido nas penumbras do amor. Não: o grande derrotado é o silêncio. As coisas agora têm tantos nomes, e em tantos idiomas, que já não é fácil saber como se chamam em língua alguma. Os idiomas se dispersam soltos e sem direção, se misturam e se confundem, disparados rumo ao destino irremediável de uma linguagem global.''
Esse discurso provocador de Gabriel García Márquez está em ''Eu Não Vim Fazer um Discurso'', novo livro do escritor colombiano lançado pela editora Record. A obra reúne 21 discursos proferidos pelo escritor nos mais variados países ao longo de seus 83 anos de vida. Traz desde o primeiro, escrito para sua formatura no colegial em 1944, até o último, realizado em 2007, quando anunciou que não escreveria mais nenhum livro após ''Memórias de Minhas Putas Tristes'', publicado em 2005.
Após ser agraciado com o prêmio Nobel de Literatura em 1982, García Marquez recebeu, em apenas um ano, quase dois mil convites para participar de eventos literários nas mais variadas partes do mundo. Se aceitasse todos eles, teria que estar presente em três ou mais evento por dia dispersos pelo mundo todo. Sua opção foi recusar quase todos e proferir discursos basicamente em países da América Latina.
Os temas escolhidos pelo escritor são variados. Em ''Eu Não Vim Fazer um Discurso'' é possível encontrar falas sobre literatura, jornalismo, cultura, amigos literatos, história, dramas e virtudes da América Latina - além de falar de sua obra mais conhecida, ''Cem Anos de Solidão''. O que pontua praticamente todas suas falas é um otimismo caloroso. Em todas elas há uma fé no homem e no futuro da humanidade.
Publicado originalmente em 1967, ''Cem Anos de Solidão'' é o romance de língua espanhola mais lido em todo século 20. García Márquez, em um de seus discursos, narra algumas curiosidades sobre os fatos que antecederam o sucesso da obra. Ele teria levado dezenove anos para conceber a história do romance. Quando realmente sentou para escrevê-lo, necessitando de dedicação exclusiva, precisou se desligar de seu trabalho como jornalista. Sem nenhuma fonte de renda regular, viveu um período de grande dificuldade econômica.
Com seis meses de aluguel atrasado, sua esposa decidiu penhorar as jóias que havia recebido de herança da família e recebeu a notícia mais inesperada possível. O que achava tratar-se de diamantes, rubis e esmeraldas, tratava-se na verdade de puro vidro.
Quando finalmente o livro ficou pronto, um pacote de 600 laudas, García Márquez precisava enviar pelo correio os originais para uma editora argentina que tinha a intenção de publicá-lo. O problema que o valor do correio era o dobro do valor que o escritor tinha no bolso. A solução foi separar as páginas em duas partes e enviar apenas a primeira metade do livro até conseguir o resto do dinheiro para encaminhar a segunda metade. Mas, por descuido ou acaso, trocou os pacotes e acabou enviando a segunda metade.
Ao receber o material, o editor argentino não entendeu muito bem a história mas acabou lendo os originais até o fim. Ficou tão curioso em saber como a história começava, que decidiu adiantar alguma grana para García Márquez enviar a primeira metade do romance.
Um elemento que o escritor frisa em grande parte de seus discursos é o valor da imaginação e da criatividade. Em suas palavras, a imaginação seria uma espécie de sabedoria salvadora, aquela capaz de impulsionar o que ele chama de 'susto do amor'.
Serviço:
Eu Não Vim Fazer um Discurso
Autor - Gabriel García Márquez
Editora - Record
Tradução - Eric Nepomuceno
Páginas - 128
Quanto - R$ 24,90
Fragmento:
Tudo isso me permite dizer a vocês uma coisa que agora comprovo, depois de ter publicado cinco livros: o ofício de escritor talvez seja o único que quanto mais se pratica, mais difícil fica. A facilidade com que me sentei naquela tarde para escrever aquele conto não pode se comparar com o trabalho que hoje em dia me custa escrever uma página. Quanto ao meu método de trabalho, nunca sei quando vou conseguir escrever, nem o que vou escrever. Fico esperando que me ocorra alguma ideia, e quando me ocorre uma ideia que considero boa para escrever, me ponho a dar voltas com ela na cabeça e deixo que vá amadurecendo. Quando tenho a ideia pronta, repito, não me sento para escrevê-la e aí começa a parte mais difícil e aborrecida para mim. Porque a parte mais deliciosa da história é concebê-la, ir arredondando, dando voltas e reviravoltas, de tal forma que na hora de sentar para escrever ela já não me interessa muito, ou pelo menos sinto que ela não me interessa muito.
(Fragmento de ''Eu Não Vim Fazer um Discurso'', de Gabriel García Márquez)

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