LEITURA - A revolução do rabo de saia
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Marcos Losnak <br> <br> Especial para a Folha2 
Numa roda de homens a conversa geralmente sempre gira em torno de três assuntos básicos e previsíveis: futebol, automóvel e política. A predominância de cada um deles varia segundo o momento e se altera de acordo com a situação. Mas seguem pelos dias completamente inumes ao sol e à chuva.
Em ''Senhor Lambert'', o ilustrador francês Jean-Jacques Sempé elege dois desses assuntos para focalizar alguns dos elementos básicos do espírito masculino. Elege as conversas sobre futebol e política para revelar os elos de amizades entre os homens. Deixa os carros de lado, mas acrescenta outro assunto onipresente nas conversas masculinas: as mulheres.
Lançado pela editora Cosac Naify, ''Senhor Lambert'' retrata o horário de almoço de um pequeno bistrô francês, o Chez Picard. De segunda a sexta, entre o meio dia e duas da tarde, vários homens se reúnem no local para o almoço. Sujeitos que trabalham nas redondezas e se tornaram amigos de refeição.
Cada um conhece as preferências gastronômicas do outro, o time de futebol do coração e as posições políticas. Apenas isso. O grau de amizade, e a fidelidade à liberalidade, não permite que um se intrometa da vida particular do outro.
A tranquilidade dessa rotina se quebra quando Lambert, o mais jovem e assíduo frequentador do restaurante, começa a chegar atrasado para o almoço. Não apenas seu horário se altera, mas também seu apetite diminui. Seu interesse pelos assuntos das conversas igualmente desaparece.
O constrangimento silencioso termina quando Lambert revela que está se encontrando com uma mulher. Essa informação revoluciona o assunto dos almoços. Os fregueses do bistrô, mais velhos que Lambert, começam resgatar as lembranças das aventuras de amorosas que tiveram quando jovens. As conversas se incendeiam. O assunto futebol e a política despencam escada abaixo e a vida ganha novos ares. Uma espécie de revolução se instaura nos almoços do Chez Picard.
Em ''Senhor Lambert'' Sempé trabalha com duas narrativas simultâneas, uma das características presentes em grande parte de sua obra. Uma das narrativas está nas ilustrações - que podem fazer uso de balões de quadrinhos ou não. A outra está no texto que acompanha as imagens - que se assemelham às antigas legendas utilizadas nos primórdios dos cartuns.
A narrativa das imagens registra as cenas, os fatos. A narrativa textual registra a voz de quem está olhando as imagens e também está nelas retratado. Uma percorre a objetividade, a outra a subjetividade. Dois universos que, apresentados simultaneamente, oferecem, ao mesmo tempo, os acontecimentos e sua leitura, os fatos e sua compreensão.
Há apenas dois elementos femininos em ''Senhor Lambert'', a garçonete que seve os clientes, uma figura que habita a realidade, e as mulheres que habitam as lembranças dos frequentadores. Essas últimas colorem o imaginário dos marmanjos com grandes arranjos do típico ''contar vantagens'' - só existem na imaginação de um passado hipotético (e a imaginação erótica masculina é mais importante que a realidade erótica).
Nascido em 1932, Sempé é um dos mais adorados ilustradores franceses. Conhecido mundialmente pela autoria da série infantil ''O Pequeno Nicolau'', é autor de dezenas de livros onde literatura e desenhos caminham de mãos dadas. Na infância foi expulso da escola pelo excesso de bagunça. Na juventude foi expulso do exército por desenhar durante as longas horas de guarda. Seguiu caminho como autodidata - atuando nas mais variadas profissões - até se firmar como ilustrador. É autor de livros deliciosos como ''Marcelino Pedregulho'' (Cosac Naify, 2009) e ''Raul Taburin'' (Cosac Naify, 2010).
Em ''Senhor Lambert'' (escrito em 1969) Sempé fala sobre o sentimento de compreensão que uma geração pode ter para com as gerações mais novas. A percepção de que os jovem precisam viver suas próprias experiências, fazer suas próprias cagadas como aprendizado. A sensação de que a solidariedade da amizade é um dos grandes instrumentos capaz de tirar alguém do fundo do poço.
Sempé não narra uma história sobre mulheres, futebol ou política. Apresenta uma história sobre a amizade. E uma amizade específica, a amizade masculina. E por mais que o senso comum imagine esse tipo de amizade como um tonel de brutalidade, ela guarda doses de delicadezas surpreendentes. Nada muito evidente. Não basta apontar o dedo para elas. É preciso jogar, sobre elas, caixas de cerveja para que elas que se tornem visíveis. E brutalmente delicadas.
Serviço:
- ''Senhor Lambert''
Autor - Sempé
Editora - Cosac Naify
Tradução - Mario Sergio Conti
Páginas - 64
Quanto - R$ 32


