O livro que já nasceu com o rótulo de polêmico carimbado de fábrica. "Submissão", novo romance do escritor Michel Houellebecq, imagina a França como um país governado por um partido político islâmico em um futuro próximo.
Se o tema já era provocador, coincidentemente o livro foi lançado oficialmente na França dois dias após o tentado ao jornal humorístico "Charlie Hebdo". O ato terrorista (ocorrido em 7 de janeiro) que deixou 12 mortos tinha sido realizado por um grupo radical islâmico.
Não é difícil imaginar o burburinho gerado em torno de "Submissão" entre os leitores franceses. Como também não é difícil imaginar o interesse pelo romance mundo afora. A edição brasileira acaba de chegar às livrarias lançado pela editora Alfaguara.
A comparação do livro com "1984", do escritor George Orwell (1903 – 1950), bem como com "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley (1894 – 1963), que surgiu estampada em todos os cantos e mídias, se revela equivocada ou fruto de embalagem promocional. O barulho em torno da obra também se revela exagerado.
"Submissão" é ambientada na França de 2022, no período das eleições presidenciais. Um dos candidatos, Mohammed Ben Abbes, concorrendo por um partido muçulmano de direita, consegue amplo apoio de partidos tanto de direita quanto de esquerda. Uma espécie de "nova via" como alternativa política carismática.
Para surpresa dos jornalistas e intelectuais, Mohammed vence as eleições e começa a colocar em prática o projeto de transformar a França num país muçulmano, fiel ao Islã. As novas normais culturais e sociais da nação passam a se apresentar visivelmente totalitárias.
O romance é narrado por François, um professor universitário solitário e descrente de qualquer ideia política. Mesmo entediado, não acredita que o poder nas mãos dos muçulmanos pode transformar o país num paraíso. Em pouco tempo perde o emprego. Com as mudanças políticas, só fiéis convertidos ao Islã podem atuar como professores. O país deixa de ser laico. As mulheres devem submissão aos homens e os homens devem submissão a Deus.
A ideia do romance é maior do que a história narrada. Houellebecq, um dos principais escritores da literatura francesa contemporânea, aposta numa profusão de referências históricas, literárias e filosófica, para mostrar a possibilidade da França (como outros países da Europa) em se tornar uma nação islâmica.
Há um latente teor de seriedade em toda a narrativa. E a grande sacada de Houellebecq está em inserir, nas últimas páginas, pequenas frases que possuem a função de quebrar todo o encadeamento do sentido. Então acontece a revelação de que, na verdade, "Submissão" é um romance satírico.
O personagem François, depois de infindáveis questionamentos contra as transformações políticas, sociais e culturais ocorridas em seu país pelo novo poder, começa a mudar de ideia. Quando recebe a proposta converter-se ao islamismo para reaver o emprego na Universidade Sorbonne-Paris como acadêmico, levanta apenas duas questões. A primeira, sobre qual será o valor de seu salário. A segunda, sobre a quantas jovens esposas terá direito.
Nascido em 1958, Michel Houellebecq se encaixa naquilo que os franceses chamam na literatura de "enfant terrible". O sujeito que adora uma provocação e uma polêmica para ser amado e odiado ao mesmo tempo. É autor de romance instigantes como "Partículas Elementares" (Sulina, 2009), "Plataforma" (Record, 2002) e "O Mapa e o Território" (Record, 2012).
A ironia presente em "Submissão" está em como uma nação democrática, severa defensora da liberdade, realiza a opção por um sistema político de princípios totalitários. Uma das possibilidades estaria no alto grau de condescendência das pessoas às questões sociais. Outra estaria na instalação de um novo ciclo histórico que encontra abrigo nos desejos individuais. Numa época de confusão de valores, a multidão de perdidos tende a se agarrar àquilo que parece mais sólido, mais definido, mais regrado.

Serviço:
"Submissão"
Autor – Michel Houellebecq
Editora – Alfaguara
Tradução – Rosa Freire d’Aguiar
Páginas – 256
Quanto – 39,90

Muitos homens se interessam pela política e pela guerra, mas eu apreciava pouco essas fontes de diversão, sentia-me tão politizado quanto uma toalha de rosto, o que era uma pena. É verdade que, em minha juventude, as eleições não tinham o menor interesse; a mediocridade da "oferta política" era até surpreendente. Um candidato de centro-esquerda era eleito, por um ou dois mandatos, dependendo de seu carisma individual; depois, a população se cansava desse candidato, e de modo geral do partido de centro-esquerda. Observava-se então um fenômeno de "alternância democrática", e os eleitores levavam ao poder um candidato de centro-direita, também por um ou dois mandatos, dependendo de sua própria natureza. Curiosamente, os países ocidentais tinham imenso orgulho desse sistema eleitoral que, no entanto, não passava de divisão de poder entre duas gangues rivais. (Fragmento de "Submissão" de Michel Houellebecq)
mockup