LEITURA - A redenção dos chatos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Inconvenientes, palpiteiros, faladores, sem-limites, abusados, caga-regras, repetitivos, egocêntricos, sabe-tudo, pretensiosos, fofoqueiros, mentirosos, bêbados, mal-humorados, rancorosos, exibidos, politicamente corretos, malas, donos da verdade, doutrinários, implicantes, intrometidos, pentelhos, vaporizados de perdigotos, etc, etc, etc.
A nomenclatura pode ser vasta, mas tudo pode ser resumido numa única palavra: chatos. O velho e irremediável chato de galocha, grudento e espaçoso. Uma praga que pode ser encontrada em qualquer lugar do planeta.
Imagine o mundo sem esse tipo de sujeito. Imagine mais. Imagine um medicamento capaz de curar a chatice, capaz de eliminar todo tipo de chato da face da terra. Pode parecer difícil imaginar tal paraíso, mas não custa tentar.
É exatamente o que fez o personagem principal de ''O Incrível Geneticista Chinês'', novo romance da escritora carioca Angela Dutra de Menezes. Debruçado em pesquisas sobre os cromossomos, ele sonhava o impossível: desenvolver um medicamente capaz de curar a chatice humana.
Lançado pela editora Record, o livro traz a história de Yuan Wang, um cientista chinês que deixa seu país para desenvolver pesquisas nos grandes laboratórios da indústria de medicamentos dos Estados Unidos. Antes de encontrar a cura da chatice, ele tem outro desafio: a cura da obesidade.
Sujeito estranho, Yuan Wang é quase um bem intencionado. Imagina um mundo melhor. Um mundo mais feliz. Um planeta sem o mal que os chatos provocam ao próximo, sem a frustração dos gordos diante de um gorduroso filé de brontossauro. Um novo planeta desprovido de pentelhos e onde a comida seja irrestrita e infindável. Enfim, o paraíso terrestre.
Angela Dutra de Menezes faz uma sátira à chamada ditadura da aparência e aos ufanistas da ciência genética. Retrata, com bom humor, a patrulha que sofrem os gordos e os chatos diante dos magros e dos legais. Brinca com os cientistas e as grandes corporações farmacêuticas em suas aspirações desenfreadas em curar tudo e todos.
Yuan Wang consegue criar o medicamente que elimina os gordos do mundo e a indústria farmacêutica enche os cofres com montanhas de dinheiro. O cientista fatura o prêmio Nobel e tudo vira felicidade até aparecerem as consequências. Com uma multidão comendo e se empanturrando sem engordar, a economia mundial entra em colapso.
Quando a Idade dos Magros se estabiliza, o cientista aparece com outra descoberta: um medicamento contra a chatice. Mas a cura dos inconiventes esbarra num detalhe: nenhum chato se considera chato. As vendas do remédio se revelam um fracasso. Para não perder os investimentos, os laboratórios criam um disque denúncia onde a população é incentivada a dedurar os chatos. Identificados, são obrigados a tomar a medicação num processo de retorno aos sistemas ditatoriais e totalitários. E, obviamente, surge um grupo de revolucionário para defender o direito à chatice. Afinal, um mundo sem chatos é um mundo chato.
Vale dizer que o narrador de ''O Incrível Geneticista Chinês'' é um chato de carteirinha, um sujeito que se recusa a participar como cobaia das pesquisas de Yuan Wang. Ou seja, toda a história é narrada por um chato assumido. O resultado é um romance engraçado que não consegue arrancar nem meia dúzia de risadas do leitor.
O final da história esbarra num buraco negro. A impressão que fica é de que a autora tinha um interessante enredo nas mãos e não sabia bem como concluí-lo. Escolheu uma reviravolta que nada acrescenta à condução da narrativa. O discurso lógico científico, um verdadeiro aluguel irônico e pastelão, descamba para o típico samba do crioulo doido. Até anjos dourados do além aparecem na jogada para salvar os chatos.
Angela Dutra de Menezes, nascida na cidade do Rio de Janeiro em 1946, é mais conhecida pela autoria de ''O Português Que Nos Pariu'', obra lançada pela editora Relume Dumará em 2000 que se tornou um dos títulos mais vendidos no Brasil e em Portugal naquele ano. Relançado com novos textos em 2009 pela editora Record, o volume reúne crônicas bem humoradas sobre episódios curiosos da história da nobreza portuguesa no período colonial brasileiro. Autora de oito livros, vários deles flertam com o gênero do romance histórico, entre eles, ''Santa Sofia'' (1997), ''O Avesso do Retrato'' (1998), ''Todos os Dias da Semana'' (2005) e ''A Tecelã dos Sonhos'' (2008).
Serviço:
- ''O Incrível Geneticista Chinês''
Autora - Angela Dutra de Menezes
Editora - Record
Páginas - 224
Quanto - R$ 37,90
Fragmento:
A bem verdade, considerei a investigação de Yuan Wang um imenso erro. Se os chatos desaparecessem, o dia a dia cairia na pasmaceira. Muita gente boa já afirmou que a dialética entre os chatos e os não chatos pavimentou o caminho da humanidade. Chatos instigam o pensamento, desenvolveram o altruísmo, estimularam a paciência, ensinaram autocontrole (alheio, evidentemente, chato com pedigree desconhece o significado da palavra controle). Por último, mas igualmente importante: os chatos exerceram e exercem o nobre trabalho da interação humana. Nas reuniões sociais, eles desfazem as rodinhas de conversas, obrigando os convidados a se agruparem, estimulando a socialização. Resumindo: os chatos são o pêndulo do planeta. Através deles, os não chatos construíram maneiras civilizadas. Entre elas, a de não enfiar os dentes nas carótidas vizinhas por qualquer motivo fútil, primeiro e longínquo passo para o processo civilizatório, que desaguou na tecnologia cibernética. Tirar os chatos do caminho nos devolveria à barbárie.
(Fragmento de ''O Incrível Geneticista Chinês'' de Angela Dutra de Menezes)


