LEITURA - A realidade emocional
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de março de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A infância pode ser um tempo e também pode ser um espaço. Pode ser uma lembrança, uma experiência, uma ideia ou uma construção ficcional. Pode ser o que os adultos bem entenderem. Mas tudo indica que infância não é o que acontece, é como acontece.
Os acontecimentos em si não teriam grandes significados. O mais representativo estaria em como eles ocorrem. A forma como as coisas acontecem seriam mais determinantes enquanto infância.
Essa tese se aplica ao romance "Bom Dia, Camaradas" do escritor angolano Ondjaki que a editora Companhia das Letras acaba de publicar. Narrando o mundo cotidiano do ponto de vista de um menino, o autor apresenta a infância como um tempo (e como um espaço) onde as sensações possuem mais forma do que conteúdo. A atribuição de conferir conteúdo aos acontecimentos estaria reservada aos adultos.
Os acontecimentos descritos pelo menino (o narrador) são os mais cotidianos possíveis. O café da manhã, o almoço com os pais e irmãos, o caminho da escola, as aulas e os professores, a relação com amigos e parentes. E a leitura dos acontecimentos nunca são certezas, apenas percepções de algo em névoa e de passagem. Até os fatos mais concretos não possuem a solidez da materialidade. Um mundo onde a realidade se apresenta em vislumbres do mundo físico.
O pano de fundo do romance de Ondjaki é Luanda (capital de Angola) do final da década de 80, uma época marcada pela guerra civil. Três frentes representam o mundo real externo para o menino. Na primeira, um velho cozinheiro da família que sente saudades dos colonizadores portugueses. Na segunda, uma tia que reside em Portugal e, durante uma visita à Angola, apresenta um inacreditável mundo europeu. No terceiro, um casal de professores cubanos que estão na escola para ensinar em nome da revolução.
Esse mundo real, curiosamente, não passa pelos olhos do menino de maneira racional. Sua relação está quase totalmente atrelada a uma relação emocional. As pessoas estão acima dos acontecimentos. Não existe maldade em estado bruto. Existe apenas a ingênua em estado natural.
A realidade se manifesta na escola por meio de dois fatos. Um estaria nas preparações para a visita de um diretor de educação que pretende vistoriar a qualidade do ensino. Outro seria a possibilidade de uma temida gangue invadir a escola para assaltarem os garotos, violentarem garotas e espancarem os professores. Esses dois fatos totalmente desconectados um belo dia se encontram e tingem a realidade de ficção entre o trágico e o cômico. Um encontro que pode assinar o fim da infância.
Ondjaki (pseudônimo de Ndalu de Almeida) nasceu em Luanda em 1977. Um dos expoentes da nova geração de escritores angolana, possui quase vinte livros publicados dos mais variados gêneros (contos, romances, poesia, teatro, cinema). No Brasil tornou-se conhecido por suas obras infantojuvenis como "Avódezanove e o Segredo Soviético", "Yani, a Menina das Cinco Tranças" e "O Voo do Golfinho".
A edição de "Bom Dia, Camaradas" revela que as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor há anos, foram colocadas em prática apenas no Brasil. Portugal ainda está em sono profundo e os países africanos de língua portuguesa estão acordando aos poucos.
Uma das coisas interessantes da literatura de Ondjaki está em oferecer ao leitor brasileiro as riquezas do regionalismo da língua portuguesa em solo africano. Algo presente em algumas páginas de "Bom Dia, Camarada": "A Paula riu, mas riu porque não conhecia o Murtala, que tinha uma técnica silenciosa de gamar mambos, mesmo que fossem animais. Uma vez quando fomos ao jardim zoológico o Cláudio apostou que ele não ia conseguir gamar nada do jardim, e quando Murtala viu aqueles macaquinhos bem píquis, quis agarrar um. O macaco lhe esticou uma lambisboia do lábio que até saiu sangue. O Cláudio começou a ri bué, mas quando voltámos para a escola descobrimos que aquilo era só uma manobra do Murtala, o muadiê queria mesmo era gamar o pitéu do macaco, e começou a nos rir no machimbondo quando nós távamos bem fobados e ele tava a pitar amêndoas bem duras. Coitado do Murtala, no dia seguinte nós é que lhe rimos, ele tava com uma diarrumba."
Serviço:
"Bom Dia, Camaradas"
Autor Ondjaki
Editora Companhia das Letras
Páginas 136
Quanto R$ 32,00 e R$ 22,50 (e-book)


