Como chamar a atenção de uma pessoa que está arruinando o meio ambiente pensando unicamente em encher os bolsos de dinheiro? Para o jovem Spree, existem duas respostas para essa questão. Uma delas, nada mais que uma conversa civilizada procurando abrir os olhos dos responsáveis. Outra, mais radical, nada menos que umas boas porradas.
Spree sempre procura inicialmente uma boa conversa. Mas, não havendo resultados positivos, parte para a ação. Foi assim que explodiu com dinamite uma das agências do banco de seu avô, quando descobriu que o banco financiava empresas que devastavam a natureza de maneira crua e gananciosa.
Sem conseguir controlar sua raiva contra aqueles que emporcalham o planeta, Spree é um sujeito que não perde tempo com discursos em defesa da natureza. Ele age. E nem sempre utiliza o bom senso, ou etiquetas sociais, para atingir seus objetivos. Até porque sabe que os inimigos fazem uso das manobras mais sujas possíveis.
Spree é o herói de ''Uma Ponte da Ilha do Sapo'', novo romance do escritor norte-americano Carl Hiaasen, lançado pela Editora Companhia das Letras. Ecoterrorista determinado, é o típico herói que quando vê alguém jogando pela janela do carro uma lata de cerveja, uma ponta de cigarro ou qualquer embalagem, persegue o porcalhão e dá seu recado, se necessário, na porrada.
A história criada por Carl Hiaasen tem início quando Spree começa a perseguir um sujeito chamado Stoat que lança todo tipo de lixo pela janela do carro. Ao sequestrar o cão de Stoat, descobre que ele é um grande lobista. Sua grande atividade é ceder favores de grandes empresas aos políticos e ceder favores governamentais a grandes empreendimentos privados.
Descobre também que Stoat está empenhado na liberação de verbas governamentais para a construção de uma ponte ligando o continente a uma ®MDBO¯®MDNM¯pequena ilha que ®MDBO¯®MDNM¯deverá ser transformada num luxuoso resort de bacanas cheios de grana. O empreendimento milionário ameaça dizimar toda a natureza do lugar matas devem ser transformadas em campos de golfe, praias em formigueiros de edifícios. Assim, uma verdadeira batalha tem início, trazendo à tona bastidores políticos e empresariais onde a ambição e a ganância tornam-se um mar de lama.
Satírico e bem-humorado, ''A Ponte da Ilha do Sapo'' apresenta uma galeria de personagens exóticos saídos da cartola da sociedade de consumo. Figuras que parecem ter saído das viagens surrealistas do escritor francês Raymond Queneau (1903-1979). Há, por exemplo, um empresário empenhado em transformar, através de cirurgias plásticas, garotas de programa em reproduções fiéis da boneca Barbie. Há clubes de caça onde velhos animais de zoológicos são clandestinamente abatidos por sofisticados turistas. Há um ex-político que, após tentar ser honesto, exila-se num pântano vestido de saia e toca de banho. Enfim, uma fauna digna de circo.
Carl Hiaasen faz da costa da Flórida o ambiente de todos os seus romances. Pisa sobre a horda de turistas que invadem a paisagem natural com fúria de consumo, arrastando suas pelancas geradas por montanhas de hambúrgueres. Com vários livros publicados no Brasil como ''Caça aos Turistas'', ''Strip-Tease'', ''Sorte Sua'', ''Chuvas e Trovoadas'' e ''Dupla Armação'' , Hiaasen produz uma literatura direcionada para a diversão satírica, mesmo trabalhando com elementos críticos da realidade.
O pontos mais interessantes de ''A Ponte da Ilha do Sapo'' está em colocar a raiva como força motriz da ação do herói Spree. Apenas sentimento de raiva perante pequenos e grandes gestos contra o meio ambiente pode gerar a energia necessária para a ação de resposta imediata. Dessa maneira, a indignação pode se transformar em combustível de mudança.


Serviço:
''A Ponte da Ilha do Sapo'', de Carl Hiaasen, Editora Companhia das Letras, tradução de Celso Nogueira, 382 páginas, R$ 42,00.

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