Quando morreu, aos 50 anos de idade, em julho de 2003, o escritor chileno Roberto BolaÀo estava no ápice de sua produção literária. Pela primeira vez na vida tinha condição de dedicar-se apenas à literatura. Corria contra o tempo. Vítima de cirrose hepática, permaneceu bom tempo esperando um transplante de fígado, o que acabou não acontecendo por falta de doadores.
Roberto BolaÀo havia publicado vários volumes de poesia, contos e novelas quando ganhou notoriedade com a publicação dos romances ''La Literatura Nazi na América'' (1996) e ''Los Detectives Salvajes'' (1998). Agraciado com alguns prêmios literários, os escritos de Bolano passaram a despertar a atenção de um grande número de leitores de países de língua espanhola.
''Noturno do Chile'', lançado pela Editora Companhia das Letras, é a primeira obra de BolaÀo publicada no Brasil. O romance é o relato delirante de Sebastián, um padre doente e próximo da morte. Num monólogo, narra toda sua existência num único parágrafo de 120 páginas.
Poeta e crítico literário, Sebastián dedica sua vida muito mais à literatura do que a Deus. Seguindo os passos de Farewell,®MDBO¯®MDNM¯ latifundiário e maior crítico chileno da época, fecha-se num mundo estritamente literário. Nesse universo purista, Sebastián despreza todo e qualquer envolvimento com a realidade imediata. Não consegue encarar nem mesmo o contexto social e político que vive seu país, de Allende a Pinochet.
Pela sua ''pureza'' literária e ideológica, Sebastián é convocado para ministrar aulas de marxismo ao general Pinochet e sua cúpula, que desejam conhecer melhor o inimigo. Nesse contexto, Roberto BolaÀo desenha um abismo de contradições no qual personagens se afundam sem perceber com clareza o impacto da queda. Enquanto, por exemplo, uma mulher da sociedade promove alegres festas literárias em sua casa frequentadas pelo padre, o marido tortura presos políticos nos porões da mesma residência.
Uma das características da literatura de BolaÀo é partir de referências reais para construir a ficção. A ironia ocupa lugar de destaque em seus escritos. Em alguns pontos aparece através do humor, em outros, através de ferinas e dilacerantes abordagens.
Roberto BolaÀo nasceu em Santiago do Chile em 1953. Aos 15 anos de idade mudou-se com a família para o México. Após o golpe militar de 1973, voltou ao Chile com a intenção de lutar contra o regime militar. Preso, conseguiu fugir do país com a ajuda de amigos de infância que trabalhavam para Pinochet.
De volta a México, participou de vários grupos literários marginais. Totalmente autodidata, não chegou a concluir o ensino médio. Mudou-se para a Espanha em 1977, onde trabalhou nos empregos mais variados enquanto dedicava-se à literatura de lixeiro a camelô, de camareiro a agricultor. Nunca voltou a residir em seu país natal e, mesmo assim, é cultuado como um dos grandes nomes da literatura chilena contemporânea.
''Noturno do Chile'' não pode ser considerada a grande obra de BolaÀo, mas sem dúvida é onde ele procurou acertar as contas com o passado da maneira mais desconcertante. O foco da narrativa não é meramente político: utiliza elementos políticos e históricos para dizer que a pureza é um típico conto da carochinha. Ou um conto do vigário.

Serviço:
- ''Noturno do Chile'', de Roberto BolaÀo, Editora Companhia das Letras, tradução de Eduardo Bueno, 120 páginas, R$ 27,00.

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