A experiência de percorrer a literatura de Paul Auster é semelhante à sensação de abrir um mapa. Um território dobrado e redobrado em infinidade de partes. Em seus últimos romances, esse desdobrar de pequenas partes que revelam a amplidão assumiu a forma de um estilo próprio.
Seu novo romance ''Homem no Escuro'', lançado pela editora Companhia das Letras, reforça esse caminho. A estrutura da narrativa é pautada pela idéia de desdobrar histórias em outras histórias - expandir o território do momento para sugerir múltiplos momentos. Como se a história narrada fosse como um mapa desdobrado parte por parte até sua extensão real.
''Homem no Escuro'' é o relato de um homem de 70 anos que, inesperadamente, se vê convivendo com a filha e a neta sob o mesmo teto. Logo no início fica mapeado um universo repleto de perdas. O avô, recentemente viúvo, perde uma das pernas num acidente de carro. A filha perde o marido, que a trocou por uma mulher bem mais jovem. A neta perde o namorado, um jovem que optou por trabalhar no Iraque e acaba assassinado pelo terrorismo.
Para se entreter no interior de suas insônias noturnas, o homem passa a criar mentalmente uma casual história ficcional. Nessa história, um jovem é jogado no meio de uma guerra civil contemporânea entre os estados que formam os EUA. Uma história cuja função do personagem principal é libertar todos ou outros personagens do ''terror do criador''. Para isso, ele precisa assassinar o narrador, justamente o avô insone.
Assim, Paul Auster constrói duas narrativas paralelas. Aquela que o homem cria durante o dia, e a outra em que vive na companhia da filha e da neta - e, acima de tudo, com seu próprio passado. ''Homem no Escuro'' é um devaneio em busca de alguma forma de entendimento, uma maneira de preencher o tempo povoado por fantasmas. Histórias ficcionais convivendo normalmente lado a lado com histórias reais. As diferenças são marcadas pelo fato de que as ficcionais podem ser conduzidas e controladas pelo narrador, e as reais, não. Um contexto onde a imaginação cria histórias porque elas podem ser manipuladas pelo narrador, justamente quando as histórias vivenciadas na realidade, por outro lado, não são passíveis de controle.
No livro, o escritor norte-americano, nascido em 1947, desdobra o mapa com a ousadia de ludibriar o leitor. Cria uma história que corresponde à metade do romance para sugerir que ela não faz propriamente sentido, é apenas um devaneio do personagem principal de outra história narrada no livro.
Uma das características da literatura de Paul Auster está em dimensionar as relações cotidianas das pessoas a partir de uma perspectiva pouco usual. Não através dos conteúdos devidamente explorados com exaustão, mas através de conexões pouco óbvias. Em ''Homem no Escuro'' isso fica evidente nas situações em que avô e neta passam dias no sofá assistindo filmes para amortizar as respectivas perdas. Nesses momentos a neta cria o conceito que a melhor parte dos filmes não está na fala dos personagens, mas naquilo que os objetos inanimados dizem.
Nada mais do que a idéia de que existem coisas que as palavras não conseguem dizer. Há sentidos e emoções que só podem ser expressos na maneira como as pessoas se relacionam com o inanimado. Nem tudo pode ser dito com palavras. Elas são eficientes para algumas coisas e ineficazes para outras. Ninguém é capaz de falar com clareza e chorar ao mesmo tempo.

Fragmento de ‘Homem no Escuro’ de Paul Auster
Depois de um tempo passei a ver essa obsessão de ver filmes como uma forma de automedicação, uma droga homeopática para se anestesiar contra a necessidade de pensar em seu futuro. Fugir para dentro de um filme não é como fugir para dentro de um livro. Os livros nos obrigam a lhes dar algo em troca, a exercitar a inteligência e a imaginação, ao passo que podemos ver um filme – e até gostar dele – num estado de passividade mecânica. Dito isso, não quero sugerir que Katya se transformou em pedras. Ela sorri e às vezes até solta uma pequena risada nas cenas engraçadas das comédias, e seus dutos lacrimais muitas vezes ficam ativos nas cenas comoventes dos dramas. Tem mais a ver com a sua postura, acho, a maneira como ela fica afundada no sofá com os pés esticados e apoiados na mesinha do café, imóvel durante horas e horas, recusando-se a se mexer sequer para atender o telefone, mostrando poucos sinais de vida, exceto quando toco nela ou a seguro. Na certa, é culpa minha. Eu a estimulei a levar essa vida apagada, e talvez devesse pôr um ponto final nisso – se bem que duvido que ela me desse atenção se eu tentasse.
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SERVIÇO
- Homem no Escuro
Autor - Paul Auster
Editora - Cosac Naify
Tradução - Rubens Figueiredo
Páginas - 168
Quanto - R$ 38

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