José Luiz Passos exige do leitor uma devida dose de paciência para entrar no propósito da narrativa de associações abertas
José Luiz Passos exige do leitor uma devida dose de paciência para entrar no propósito da narrativa de associações abertas | Foto: Fernarda Fiamoncini/ Divulgação



"A política é o campo de afetos e desafetos coletivos."
Essa definição pouco usual da política brasileira aparece em "O Marechal de Costas", novo romance do escritor pernambucano José Luiz Passos. Mas tudo indica que a coisa parece ser mais complexa, afinal a História também pode ser o campo de afetos e desafetos coletivos.
Lançado pela editora Alfaguara, "O Marechal de Costas" é um romance que se propõe a realizar uma tarefa típica da literatura contemporânea: misturar fatos históricos e ficção sem nenhum pudor. A intenção não está em distinguir uma coisa de outra, mas unir as duas para criar uma terceira. Uma narrativa livre para todas as confusões e interpretações possíveis.

A obra traz duas narrativas paralelas que dialogam entre si por analogia. De um lado está a tentativa de traçar uma biografia doe marechal alagoano Floriano Peixoto (1839 – 1895). De outro lado está a tentativa de traçar as impressões de uma cozinheira carioca diante do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Ou seja, apresenta dois momentos completamente diferentes da história política do país para compor uma alegoria completamente aberta.

Floriano Peixoto foi o tipo de sujeito do século 19 que viveu com os pés em duas canoas. Atuou como militar cruel no Império de Portugal e como político mão de ferro na República do Brasil. Após passar anos lutando na Guerra do Paraguai e na Revolução Federalista, defendendo o império português, passou a ser vice-presidente da república durante o governo de outro marechal, Deodoro da Fonseca (1827 – 1892), o primeiro presidente do Brasil após a proclamação da República em 1889.

Quando Deodoro renunciou ao cargo, Floriano, como vice-presidente, assumiu a presidência com o acordo de que, o mais rapidamente possível, convocaria novas eleições. Mas Floriano gostou da cadeira da presidência, agarrou o osso e não soltou mais. Bateu o pé e não convocou novas eleições. Cumpriu o mandato na base da linha dura e ficou conhecido como "marechal de ferro".
O resultado é que mais da metade das cidades brasileiras possuem alguma rua, avenida ou praça chamada Marechal Floriano Peixoto. Até mesmo a cidade de Florianópolis, originalmente chamada Nossa Senhora do Desterro, foi renomeada em homenagem ao militar.

Apesar da pesquisa história que desenvolveu, em "O Marechal de Costas" José Luiz Passos está mais interessado em preencher as lacunas presentes na biografia de Floriano Peixoto do que nos fatos históricos propriamente ditos. Preencher essas lacunas com ficção se revela o grande sentido da narrativa.

Do outro lado, a cozinheira que trabalha no apartamento de um advogado figurão, por ter nascido na mesma cidade que Floriano Peixoto, é tratada ironicamente como uma possível bisneta do marechal. E acompanha as manifestações que ganharam as ruas 2013, passando por seus desdobramentos políticos, até chegar ao de impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

O detalhe é que ela não vê os acontecimentos com os próprios olhos, mas através dos comentários realizados pelo patrão e por um amigo do patrão, um professor de ciência política. A narrativa de "O Marechal de Costas" procura desenhar uma teoria política para chegar à conclusão que tal teoria seria impossível de ser desenhada. Trata-se de apenas uma ideia que não chega a ser sistematizada, simplesmente é deixada de lado.

José Luiz Passos nasceu pequena cidade de Catende, em Pernambuco, em 1971. Há 20 anos vive nos Estados Unidos como professor de literatura brasileira e portuguesa. Atualmente leciona na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Publicou seu primeiro romance "O Grão Mais Fino" em 2009. O segundo, "O Sonâmbulo Amador", saiu em 2012 e recebeu o premio literário Portugal Telecom (atual prêmio Oceanos) do ano seguinte.

Em "O Marechal de Costas", José Luiz Passos exercita o cozimento do galo até praticamente metade do livro. Exige do leitor uma devida dose de paciência para entrar no propósito da narrativa de associações abertas. Afinal, a política não é mais o campo das ideologias, das ciências ou das ideias. Deslocou-se para o campo das emoções mais imediatas e primárias.

Serviço:
"O Marechal de Costas"
Autor – José Luiz Passos
Editora – Alfaguara
Páginas – 200
Quanto – R$ 44,90

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A política das emoções imediatas
| Foto: Reprodução
Fragmento: Toda biografia é como adivinhar pelas costas o rosto de alguém. Damos à pessoa um traço possível. Quando ela se vira, pode ser outra. Pode ser, aliás, o contrário, como uma estátua que estranha o rosto de seu modelo vivo. A História se encarrega de apanhar lances do real que talvez nunca tenham sido levados a cabo pela mecânica do próprio real. E tudo, em se tratando do passado, vem retinto pela imaginação, foi o professor quem falou isso. Na passeata meses antes, tínhamos parado diante do monumento do marechal, chegamos por trás dele. A base mostra dois índios, Anchieta fazendo catequese e também Caramuru, ele apontou e disse: Figurando aí o colonizador português, seguido por um casal de negros africanos. O monumento faz referência a três datas: 1789, 1822 e 1889. Tem três inscrições. A sã política é filha da moral e da razão. O amor por princípio a ordem por base e o progresso final. Libertas quae sera tamen. No topo da coluna está a imagem de corpo inteiro do marechal, de costas para a bandeira do Brasil. (Fragmento de "O Marechal de Costas", de José Luiz Passos)
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